Política

Os privilegiados

Tamanho da Letra: A-A+

Ouve-se constantemente falar, por parte da classe política, em aproximar o cidadão eleitor. E quanto maior é o distanciamento, mais o discurso tende a aumentar e os bons propósitos não param de se expandir e de chamar para a sua causa o cidadão mais desprevenido. Mas enquanto o palavreado aponta numa direcção, bem diferente é a sua actuação. Mesmo nestes anos de forte contenção e de uma austeridade alarmante que se abateu sobre a população em geral, os privilégios da nossa classe política chocavam e chocam com o que se continua a ver na maioria de um povo sofredor.

Ao longo dos últimos anos, foi retirado a cada um o essencial para fazer face à sua vida diária como a alimentação ou aos custos de habitação. Além do desemprego alarmante, dos cortes nos vencimentos, na redução das pensões e na desvalorização do trabalho, os impostos não têm parado de aumentar a par de taxas, derramas e muitas outras formas de a todos penalizar. E no meio deste sufoco que se abateu sobre Portugal, uma classe continua com todas as mordomias tornando-se verdadeiramente excepcional; a classe que se desunha para alcançar o poder e que luta até à exaustão para o continuar a manter.

Esta luta titânica seria de difícil compreensão se não fossem conhecidos os seus resultados e a sua actuação. É o que poderemos ver numa Assembleia da República com os deputados servidos por restaurantes e ementas faustosas quase gratuitas que os deveriam envergonhar se fossem comparadas com as de qualquer trabalhador. E a isto há que juntar muitas outras regalias que os acabam de afastar e de não conseguirem imaginar o que se passa com o simples cidadão. Este rol de mordomias ainda vai continuar quando, um dia, deixarem os aposentos de S. Bento. São os subsídios de reintegração e os privilégios do regime especial de aposentação. E a listagem poderia continuar para os que dizem nos estarem a representar.

Antigos Paços do ConcelhoMas este regime de excepcionalidade não é exclusivo da Assembleia da República. Bem mais perto de nós, no poder local, também os privilégios se fazem amontoar com subsídios de reintegração e com anos contados a dobrar para a aposentação. No que a reintegrações diz respeito, Júlio Barroso, ex-presidente da Câmara de Lagos, para se reintegrar, embora com o seu lugar de notário reservado, recebeu para cima de vinte mil euros para começar a trabalhar. António Marreiros, que estava em segundo lugar, recebeu vinte mil para se aposentar. E Joaquim Pedro Cruz, por não continuar na Junta de Freguesia de São Sebastião, recebeu dez mil pela sua reintegração. Ninguém os empurrou para o lugar que, durante doze anos, estiveram a ocupar. Mas, mesmo assim, a compensação com a sua cessação não poderia faltar. E como a lei os beneficiava, deitaram mão a este subsídio de reintegração.

Ninguém poderá imaginar que foi um privilégio apenas de Lagos. O que por aqui aconteceu teve expressão pelo país adiante independentemente de uma possível gestão ruinosa que os seus agentes protagonizaram, das dívidas que amontoaram ou de uma actuação que condicionou quem veio atrás de si.

Se o poder local também beneficia, em geral, das benesses políticas, ainda são dos que estão na cauda da fila. As dos demais cargos políticos têm outra dimensão e, apesar da sua imoralidade, criaram uma tal habituação que são defendidas com todo o despudor e a maior arbitrariedade. Foi o que se passou, nos últimos dias, com as subvenções vitalícias dos deputados. Seria de imaginar que quem nos está a representar tivesse alguma sensibilidade social. Mas não. O que lhes interessa é a manutenção dos privilégios de cada um. Foi o que nos acabaram por demonstrar com essa tentativa, mesmo que falhada, de recuperar subvenções vitalícias para as quais não haviam descontado nem justificado por outra forma qualquer. E ainda mais com o país a viver graves privações e fortes penalizações nos magros vencimentos que se estão a auferir.

Para a história fica esta intervenção política, fora de tempo, dos inefáveis deputados Couto dos Santos e José Lello que, pelos vistos, outra coisa não sabem fazer a não ser defender os seus privilégios. Já era tempo de cada um se aposentar e de ceder o seu lugar. Mas o pior foi a adesão dos seus partidos e a votação para aprovação de tão inusitada medida. Se deste PSD já tudo se pode esperar, do PS contar-se-ia com outra razoabilidade e uma maior consonância com a sensibilidade do nosso povo. Foi confrangedor ver a veterania PS pôr toda a sua galhardia na defesa de uma medida despropositada, injusta e desfasada no tempo. Deu apenas para perceber como o bloco central dos interesses, para defender as suas benesses, se sabe entender.

E com um PSD a destruir um país e a vendê-lo às fatias, parecia ainda haver, apesar do passado, uma réstia de esperança a que deitar a mão. Mas com esta actuação parece que a orfandade se instalou e a ausência de referências é uma realidade entre nós. E com os últimos acontecimentos da detenção de um ex-primeiro ministro para interrogação, a estupefacção subiu em espiral e uma atmosfera sombria apoderou-se dos caminhos de Portugal. Não admira, por isso, que o distanciamento e a desconfiança entre o cidadão eleitor e a nossa classe política seja cada vez maior. E a porta abre-se a todos os extremismos.

Etiquetas:

Comentar

Todos os direitos reservados.

Diário Online Algarve Express©2013

Director: António Guedes de Oliveira

Design & Desenvolvimento por: Webgami