A magia do Douro

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Desde tempos imemoriais que o Douro tem atraído sobre si múltiplas atenções e concentrado, ao longo do seu percurso, inúmeras populações. Apesar da sua paisagem rude e agreste constituir um desafio a quem aí se quisesse fixar, desde épocas remotas foram muitos os que a quiseram desafiar. E esse desafio foi ao extremo de a quererem domesticar. Foi o que aconteceu quando aqueles declives, feitos de escarpas e de fragas, se começaram a preparar para darem origem ao seu famoso néctar. Com outros povos a descobrir aqueles vales e cumes de dimensões que fazem assustar, cedo essas terras misteriosas começaram a exercer a sua magia sobre quem as percorria. E se lhe juntarmos esse clima invulgar, a par de um terreno xistoso, estão criadas as condições para esse fascínio e esse poder de atracção que se exerce sobre quem percorre uma terra como aquela.

DouroFoi toda essa magia que um dia se viria a exercer sobre os ingleses que a ousaram percorrer. Essa dureza, que vai das suas altitudes até às suas profundidades, haveria de chamar a atenção e de ser um factor de persuasão; ao ponto de se começar a pensar nas potencialidades que daí se poderiam retirar. E a que haveria de internacionalizar o Douro e de humanizar a sua paisagem foi a dos seus socalcos onde as vinhas começaram a nascer e a das gentes tisnadas pelo sol que quotidianamente as começaram a percorrer. E a si associaram esses quadros lendários dos barcos rabelos com pipas a transbordar que, Douro abaixo, transportavam esse famoso néctar. Assim se foi criando essa imagem à qual o mundo se rendeu e que, com o rótulo de vinho do Porto, se globalizou. E hoje é uma das maiores marcas que deu a conhecer o nome de Portugal e que ombreia com qualquer outra no panorama internacional.

Douro3E parecia que o Douro se rendia apenas ao vinho do Porto que brota das suas entranhas. Foi o que pareceu sair dessa paisagem tão fascinante como distante das grandes metrópoles e outros centros urbanos.

Escondida por detrás das suas serranias, parecia que mais ninguém lá ia para além de quem trabalhava as suas vinhas e comercializava o seu produto. Este isolamento começou a ser quebrado por um comboio que teimava em dar a conhecer aquela dádiva de Deus a quem ousasse percorrer aquele vale profundo dentro de uma carruagem. Mas, um dia, a navegabilidade do Douro chegou e esta primeira região demarcada do mundo começou a mostrar as suas potencialidades turísticas. E começa a ser dos destinos mais apetitosos que Portugal tem para oferecer.

Douro4Para, mais uma vez, admirarmos esta obra da criação, fomos, a 4 de Junho, percorrê-la ao longo do percurso que o comboio, nos dias de hoje, nos pode oferecer e contactar com muitas das potencialidades que se estão a explorar. Um local de passagem periódica, como é o da estação de São Bento, no Porto, merece sempre a nossa admiração, ou não fosse uma das estações mais belas que se pode encontrar em qualquer parte do mundo. Acompanhados por um dia cheio de sol e com o calor a fazer-se sentir, lá fomos percorrendo as Douro5diversas estações que se alinhavam ao longo daquele percurso. Ladeados por grupos de turistas que faziam questão em desbravar um destino como aquele, começamos a mergulhar na paisagem cativante do Douro pouco depois de termos atravessado as águas do Tâmega. E com aquele percurso serpenteante, lá fomos caminhando, por entre uma paisagem verdejante, a caminho da Régua. Com toda uma paisagem vinícola a aparecer, os socalcos começavam a subir e a descer. E à medida que o caminho Douro6avançava, os cumes começavam-se a elevar e a paisagem a mostrar a sua verdadeira beleza. Era o que se podia ver entre a Régua e o Pinhão. Daí em diante a austeridade começa-se a acentuar e o percurso entre o rio e as escarpas a manifestar a sua rudeza. Tudo é mais rude, selvagem e inóspito. E, de repente, a foz do Tua está pela frente. Seria mais um convite para a desbravar esse percurso rio acima. Mas, infelizmente, o seu traçado, selvagem e cativante, já foi desactivado e não pode ser percorrido. A viagem Douro7continuou em direcção ao Pocinho, a última estação da linha do Douro, por terem desactivado a restante até Barca d’ Alva. Com uma paisagem cada vez mais agreste, aquele percurso lá se ia rasgando por entre fragas e outro tecido rochoso. Ao fundo, o rio inconformado continuava a rasgar aquele que fora o seu leito e que é para continuar. Até que, por fim, o Pocinho chegou e com ele ficou a frustração de não podermos continuar por comboio essa viagem que outros rasgaram e que, incompreensivelmente, para o turismo e beleza do Douro, alguns fecharam. E com esse património ainda por desvendar, percorremos o Pocinho para, depois, regressar.

Douro8Para trás ficou uma viagem cá dentro que requer continuação devido à magia do Douro e ao seu poder de atracção. É, sem dúvida, devido a essa magia que, cada vez mais, o Douro se está a descobrir e que, em crescendo, muitos turistas nacionais e estrangeiros o estão a seleccionar. Vê-se nos comboios cheios de gente que o estão a percorrer, como se vê nesses cruzeiros de rio que o vão navegando e penetrando nas suas entranhas. Mas vê-se ainda nesse turismo rural que está a despontar e em tudo o turismo vinícola que está a prosperar. E tudo acontece devido a essa paisagem fascinante e a essa magia que a ninguém deixa indiferente.

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