Política

As diatribes do PS de Lagos

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São por demais conhecidas as diatribes que, de tempos a tempos, têm lugar no interior do PS de Lagos. Como partido de poder, e com especial incidência no concelho de Lagos, muitos são os que se acoitam à sua sombra na mira de poderem aceder a algum lugar que lhes possa abrir as portas a um possível futuro político. E como as perspectivas são aliciantes, a luta por qualquer posição acaba por turbar a própria razão. São, por isso, por demais usuais as lutas internas para qualquer um se tentar posicionar e arredar um possível companheiro de “route”. Estas lutas fratricidas tanto têm começado a transbordar que o próprio partido de Lagos começou a ficar conhecido como uma espécie de saco de gatos onde cada um tenta arranhar o mais que puder o seu vizinho do lado.

Esta tradição voltou a ter actualização com os últimos acontecimentos bem dentro de suas portas. Basta recordar o que se tem passado nos últimos tempos. O partido voltou-se a fraccionar quando Joaquina Matos, secundada por Hugo Henriques, liderou a lista da Câmara e, como era de prever, lá se conseguiu instalar. Pelo caminho, ficaram os descontentes que quiseram mostrar que, pelo menos no futuro, tinham uma palavra a dizer. E à frente de todos estava António Marreiros que vinha da Câmara anterior e, contra as suas expectativas, haveria de ficar de fora. O seu inconformismo vir-se-ia a manifestar em todo o movimento que conseguiu levantar contra, o que dizia, ser o partido da oficina. E esta movimentação, diziam eles, encontrava expressão no número dois para a Câmara. Contra esta fulanização, o partido começou-se a movimentar e eis que os descontentes acabariam por ganhar. E, assim, a comissão política do PS de Lagos, embora tendo à cabeça o jovem Márcio Viegas, mais não era do que a face do descontentamento de António Marreiros que, na lista para a Câmara, à última hora, acabara por ficar de fora.

E, assim, enquanto na Câmara estava instalado o PS do poder, na Comissão Política estavam os que, no futuro, teriam uma palavra a dizer. É que, conforme rezam os estatutos, a Comissão Política acabada de eleger tinha um mandato por quatro anos e, desta forma, seria quem, no futuro, viria a coordenar todo o processo para determinar quem seriam os futuros candidatos a um novo mandato autárquico. E como, conforme faziam questão de dizer, toda a campanha foi contra a oficina que se havia transformado na sede PS, era de prever que, no futuro, o lugar de Hugo Henriques poder-se-ia contestar ou mesmo ser colocado em causa. Poderiam ainda perigar a maioria dos que lá se conseguiram instalar. A percepção, por parte de todos, foi evidente. E, por isso, decidiram caminhar em frente ao começarem a delinear a correspondente estratégia política. Embora ninguém o possa afirmar, teremos de dizer que em política o que parece é. E, à vista de qualquer cidadão, a captura de Márcio Viegas pelos detentores do poder começou a fragilizar e a criar os primeiros rombos na embarcação da Comissão Política PS de Lagos. Com o seu timoneiro a soçobrar, os restantes membros não tiveram capacidade de se aguentar. Em carta aberta, decidem desferir os maiores ataques àquele que, pelo menos em teoria, os estivera a dirigir. Em guerra aberta, a nau começa a não se aguentar e, daí em diante, foram dois passos até se afundar.

Lagos_Rua 25 de Abril2

Com a demissão da Comissão Política do PS de Lagos em vésperas de eleições, não admira que, mesmo a nível distrital, surgissem as maiores preocupações. E para salvar as aparências, começou-se a pensar numa comissão provisória de mera gestão com a duração de apenas seis meses. Assim, a nível de Lagos, o caminho vir-se-ia a franquear para que quem tem o poder lá se pudesse instalar. Foi o que aconteceu com o maior despudor e sem a menor preocupação em dar para o exterior uma imagem mais abrangente, mais renovada e mais de cara lavada. De uma assentada, a brigada da Câmara parece ter assaltado o partido e destituído os seus predecessores. É o que nos acaba por dizer toda a vereação, com excepção de Maria Fernanda Afonso, sabe-se lá bem porquê! Até a Presidente não resistiu à tentação de integrar a nova Comissão de gestão do novo rosto PS de Lagos. Exigir-se-lhe-ia algum recato e uma maior contenção e não entrar em contendas como esta. Ainda mais quando os seus adversários internos vêm dizer que Márcio Viegas foi capturado e, por isso, agora recompensado ao figurar ao lado dos novos senhores. E continuam a dizer que oficina ganhou um peso ainda maior e passou a ser a verdadeira sede PS. Joaquina Matos, como Presidente, deveria mostrar uma atitude mais equidistante de todos estes jogos políticos.

Mas Presidente e vereação juntos lá estão a preparar um novo futuro político. E é de prever que a futura Comissão Política PS de Lagos os continue a manter. Seguir-se-ão tempos de hibernação até que algumas eleições criem de novo as habituais movimentações para cada um tentar um lugar que lhe permita aceder a alguma forma de poder. E para trás fica mais uma oportunidade perdida de renovar o partido, de criar uma abrangência maior, de o abrir à sociedade e de o pôr a refletir sobre os problemas que constantemente nos estão a bater à porta. Como partido de poder, e com especial incidência no concelho de Lagos, o PS tem obrigação de criar fóruns de reflexão e de participação da sociedade civil para se debater a cidade que temos, a que queremos e os melhores caminhos para lá chegar. E, de uma forma mais particular, com o verão a chegar ao fim, seria tempo de refletir sobre o verão que tivemos, os problemas que enfrentamos e as formas de os resolver para que não se venham a repetir no próximo que há de vir. Estes e muitos outros temas deveriam fazer parte da nossa agenda política.

Sem capacidade de reflexão ou alheias às nossas lides diárias, as nossas forças políticas só dão sinais de existência quando as suas quezílias internas começam a transbordar e a dar-se a conhecer no nosso espaço público. Não se trata de qualquer excentricidade ou de um modus operandi que seja exclusividade PS. As demais forças políticas são iguais na forma de proceder, com excepção da CDU que, de tempos a tempos, cria espaços de reflexão e de debate sobre os problemas que batem à porta de cada um. Pondo de lado esta raridade, as demais forças políticas primam pela passividade, pelo alheamento e pelo distanciamento em relação à sociedade em que deveriam estar inseridas. O que acaba de acontecer no PS de Lagos e o que vai suceder é o espelho de que os partidos locais só se sabem movimentar em face de quezílias internas ou quando está em questão algum lugar de acesso ao poder que, de jeito nenhum, ninguém quer perder. E os últimos acontecimentos no PS de Lagos e os que lhe vão suceder são disso um espelho perfeito.

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