Pareceria, à primeira vista, que a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente da República seria perfeita. Sem se escudar, em demasia, no apoio de partidos para o lançar e definir a sua candidatura, soubera como ninguém fazer a sua corrida com um balanço pessoal e sem necessidade de outros lhe abrirem as portas da comunicação social. Neste capítulo, Marcelo, ao longo de anos a fio, tivera a sua exposição e soube-a aproveitar como ninguém para uma possível confrontação com alguém que se lhe atravessasse pela frente a caminho da Presidência da República. E, ainda por cima, a sorte acabaria por o bafejar ao não ter de se confrontar com um candidato como António Guterres. Se Guterres tomasse a opção de aparecer, era difícil de prever se Marcelo, mesmo com a sua forte exposição, ousaria entrar nesta confrontação a caminho de Belém. Não nos podemos esquecer que Marcelo nunca acabou por vencer qualquer eleição, fora do seu partido, em que ousou participar e em que pretendeu deixar a sua marca política. E com Guterres pela frente, era bem possível que Marcelo fosse um ausente destas eleições que acabou por vencer.
Com todos os campos a posicionarem-se de feição, Marcelo Rebelo de Sousa via pela frente tudo a jogar em seu favor e não passaria pela cabeça de ninguém que não fosse ele o vencedor. A dúvida que se poderia levantar era quando se poderia concretizar. Com candidatos menos cotados e com outros desconhecidos e incapazes de convencer alguém dos motivos porque ousaram aparecer, Marcelo, à primeira ou à segunda volta, acabaria mesmo por vencer. Sampaio da Nóvoa foi também um candidato marcante. Mas sem apoios declarados e com a indefinição do PS, não poderia ir muito mais além dos 22.89% que obteve a caminho de Belém. Mas, se destas eleições alguma lição se poderá retirar, é a da forte penalização que Maria de Belém viria a sofrer. Os eleitores quiserem demonstrar, e de uma forma muito veemente, que não há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda. E, muito concretamente, que os titulares de cargos públicos não se podem servir dessa prorrogativa para se auto beneficiarem e se transformarem numa casta à parte e insensível à mais diversificada penalização que se abate sobre cada cidadão e que é produzida por si. E Maria de Belém demonstrou que transporta consigo os piores vícios da classe política com acumulações e com as tão controversas subvenções. Não se trata de populismo ou de demagogia conforme os nossos políticos nos querem fazer crer. Trata-se, simplesmente, de ética republicana conforme, constantemente, fazem questão de invocar.
Para além destes e de outros episódios em que nos poderíamos debruçar, restam os dez candidatos que, preenchendo os requisitos da legislação nacional, se apresentaram a este plebiscito eleitoral. E conforme a classe política começou a pôr a correr, e que os comentadores do politicamente correcto vieram corroborar, as condições têm de se alterar e as dificuldades de candidatura têm de aumentar. Parece que só aos partidos é permitido uma candidatura. E a qualquer cidadão, as dificuldades devem impedir qualquer viabilidade de poderem aparecer. Constantemente, ouvimos discursos mais ou menos elaborados, por parte da nossa classe política, a falar em cidadania. Mas quando esta se começa a exercer, fora da sua influência e fugindo ao seu patrocínio, há que a eliminar ou que a coartar no que ela tem de mais genuíno. E a onda que se começa a gerar, na classe política e nos comentadores que gravitam em seu redor, é a de dificultar quem se possa apresentar a um acto eleitoral fora do chapéu dos partidos.
Com todas as reflexões que as presidenciais podem provocar, Marcelo Rebelo de Sousa foi um candidato que soube esperar e que, no momento próprio, sem opositor, soube avançar. Seria passar ao lado de uma carreira política sem ocupar qualquer lugar que lhe desse alguma posição e um lugar na chefia do país. E sem António Guterres, as condições estavam criadas e Marcelo não hesitou em avançar e chegar à Presidência da República. Embora a sua filiação partidária não se possa descurar, tem muito a ver com a dimensão pessoal e com toda a sua relação com a comunicação social que, ao longo de anos a fio, soubera manter. Mas, apesar de todos os atributos indispensáveis para esta eleição, há um senão que ficara a marcar esta eleição; o da abstenção. Com 51.2% dos votos a ficarem de fora, toda a classe política, a começar por Maria de Belém, Manuel Alegre e passando, agora, por Marcelo, terão que repensar as suas atitudes, a seu procedimento, a sua forma de estar e de se relacionar com o todo nacional e com a população em geral. E numa República como a nossa, todos os cidadãos são iguais. Não há seres excepcionais. Mesmo com a chancela do Tribunal Constitucional, as excepcionalidades com que a classe política se auto gratifica, a injustiça continuará a prevalecer e a abstenção continuará a aumentar. E este será o grande desafio de Marcelo: fazer de cada um um cidadão com as mesmas regalias e os mesmos direitos independentemente do seu estatuto, da sua filiação ou da ocupação de funções e dos lugares que ocupe ou venha a ocupar. Se assim vier a acontecer, todos nos sentiremos pertencentes a esta casa comum e a abstenção começará a perder a sua expressão.
Etiquetas: Algarve, Marcelo Rebelo de Sousa







