Entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa – Março de 2005

POR ALGARVE EXPRESS
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Poder-se-á dizer que Marcelo Rebelo de Sousa é o homem dos sete ofícios. Chama a si, conforme faz questão em realçar, a actividade de professor com a que está na base da sua ocupação e à qual se entrega com toda a dedicação. Mas como o seu conceito da docência é bastante mais abrangente, para além da sua actividade escolar quer abarcar um auditório bastante mais vasto. Com esta convicção, desde muito cedo se embrenhou, também, pelos caminhos da comunicação social. Com o inconformismo que lhe é reconhecido, fez furor quando chamava a si as funções de director do semanário “Expresso”. As crónicas que saíam e os cenários que construía causavam perturbação e agitavam ainda mais os tempos tumultuosos da revolução. Apesar do sucesso que, nas lides do jornalismo, começava a demonstrar, parte ao encontro de outros voos onde viria a inscrever o seu nome. A política que, nesses anos, não passava indiferente a qualquer jovem interveniente, havia de chamar Marcelo para a sua causa. Apesar de todos os lugares e posições que ocupou, a sua rebeldia e a sua capacidade de surpreender ficaram demonstradas quando, como candidato à Câmara de Lisboa, protagonizou o célebre mergulho nas águas poluídas do Tejo. Depois desses anos, em que a política e a comunicação social se entrelaçavam e, praticamente, andavam de mãos dadas, Marcelo continua a cultivar a sua missão de professor conforme faz questão em se apresentar.
Nos tempos que se seguiram, com bastante mais tranquilidade, continua a cultivar essa tríplice dimensão que, de professor e de político, não deixa de fora os caminhos da comunicação social. E, precisamente, quando Marcelo é menos falado, os seus comentários na TSF são amplamente escutados. Com a sua cotação a subir nas ondas da TSF, eis que uma nova missão de grande visibilidade acaba por o chamar. Embora o professor sempre tivesse a política por pano de fundo, parecia não se querer entregar a essa actividade absorvente e, sobretudo, abraçar a função de presidente do seu partido. Mas, de repente, eis que o seu partido de sempre o vem desafiar e Marcelo acaba por lhe responder. Conforme nos segreda ao longo desta entrevista, quis o destino que, com um dos seus grandes amigos de juventude entrasse em colisão uma vez que era um Primeiro Ministro e outro líder da oposição.
Com todo este seu mediatismo de última hora, o professor Marcelo acabaria por abandonar a liderança da oposição por, em seu entender, ter sido traído pelo seu parceiro de coligação. Quando se imaginaria um afastamento, uma travessia ou um deserto feito de anonimato, eis que o Professor irrompe nos ecrãs da televisão e começa a ter uma palavra a dizer, embora indirecta, na condução da vida política. A sua influência é de tal ordem determinante que um ministro do governo anterior não consegue esconder a sua irritabilidade e lança as maiores atoardas sobre os comentários do Professor. A polémica que, então, se gerou adquiriu tal amplitude que acabou por contribuir para que o governo acabasse por cair.
E com uma gestão de conflitos, como muito bem Marcelo Rebelo de Sousa sabe fazer, a sua posição saíu reforçada e acabou por protagonizar uma transferência da TVI para a RTP que ainda mais prestigiou e enfatizou a dimensão dos seus comentários.
Com todo o prestígio adquirido, Marcelo não se quer ater apenas aos ecrãs da televisão e, apesar da amplidão que este meio lhe dá, faz questão de privilegiar o contacto directo e de dar expressão à sua simpatia e ao seu poder de comunicação. Foi o que aconteceu, a 29 de Março, quando Marcelo desceu até Lagos para um jantar rotário e para aí proferir uma palestra sobre o futuro de Portugal. Aproveitamos a ocasião para entrevistar Marcelo e o confrontar com muitas questões que estavam e estão a dominar a agenda política. Apesar da noite ir longa demais, o professor não se furtou a percorrer as questões que lhe colocámos e com que, naquela noite, o confrontámos. O resultado desse encontro é dado aos nossos leitores através desta entrevista.

    “O poder não gosta da crítica.”

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    “Há várias formas de poder que podem ficar desagradadas com os nossos comentários. Há o poder que não gosta, mas respeita. Há o poder que não gosta, mas tolera. E há o poder que não gosta e não consegue tolerar.”

C. de L. – O professor Marcelo Rebelo de Sousa sempre foi considerado uma pessoa inconformada, imprevisível e algo irreverente. É essa irreverência e essa imprevisibilidade que criam em si esse poder de atracção capaz de provocar repulsa ou veneração em todos os que não perdem os seus comentários?
MARCELO REBELO DE SOUSA – Em primeiro lugar, começo por agradecer os seus qualificativos que, naturalmente, só dão expressão a uma prova de amizade e consideração. No que à minha forma de ser diz respeito, admito que a minha educação, por influência dos meus pais, sempre se tenha pautado por uma grande autonomia de espírito. E foi, não só, uma independência de espírito, mas mesmo, uma independência de vida que se tem manifestado em relação às mais diversas formas de poder económico, social, político ou outros. Esta minha forma de me posicionar e de encarar a vida foi facilitada, também, pelo facto de ser professor. O professor é, por natureza, independente, na formulação dos seus juízos e na sua própria forma de se posicionar. Ainda era um recém-licenciado e recém-assistente na Faculdade de Direito quando comecei a intervir com posições de responsabilidade na comunicação social. Estive na fase de lançamento do “Expresso” e, aí, comecei um longo percurso na comunicação social. Primeiro, na imprensa escrita; depois, na rádio; e, mais tarde, na televisão. Foi-se definindo um percurso que, por força da missão que se desempenha, nem sempre é do agrado de muitos. Mas temos de ter consciência que, numa sociedade em que o poder pode muito e a sociedade civil pode pouco, a crítica dificilmente é bem vista. O poder não gosta da crítica. Mas faz parte da essência da democracia a convivência com a crítica. Por isso, as diversas formas de poder terão de a aceitar, de a tolerar ou, pelo menos, de se resignar à crítica como um factor de democracia e pluralismo.

C. de L. – Sobretudo os que o escutam ou lêem com alguma incomodidade não se cansam de associar à sua personalidade alguma indefinição pelo facto de vestir, em simultâneo, o fato de político, de comentarista e de professor. Poder-se-á dizer que esta tríplice dimensão da sua intervenção como cidadão comporta alguma indefinição ou, pelo contrário, é resultado de uma personalidade multifacetada e apostada em tocar vários instrumentos em simultâneo?
M. R. S. – A minha vocação é ser professor. Mas há, naturalmente, diferentes planos em que a minha intervenção se desenrola. O plano mais importante é o do professor. O segundo, que é um prolongamento do primeiro, é o de pedagogo e o de comentador. E, depois, virá o de político que é um plano acidental ou ocasional. Acabei por ser político em alguns momentos da minha vida, embora, como cidadão, a dimensão política se manifeste em tudo o que faço. Mas, no sentido clássico do termo, fui político quase por acaso. Em momentos em que houve que preencher lacunas e salvar situações de emergência, decidi dar o meu contributo ao intervir directamente na política activa. Desta tríplice experiência, resultou, admito, para o comentário, um conjunto de vantagens. Por um lado, porque comento situações que estudei como professor de ciência política, como professor de sociologia política ou como professor de direito político. E, nesse sentido, embora a realidade seja sempre mais rica do que o que vem nos livros, o facto de ter estudado ajuda a compreender a realidade e a falar sobre ela. Também a minha passagem pela política activa me permite, ao comentar, ter a noção exacta daquilo que estou a dizer. Não me sinto a comentar uma realidade distante. O que estou a comentar, em muitos casos, são decisões, experiências, sensações, emoções, desilusões, alegrias e tristezas que eu próprio vivi, embora noutro plano e em outro contexto. Admito, por isso, que o facto de poder adicionar outras características à minha intervenção como cidadão, permite dar ao comentário uma perspectiva que é, porventura, mais completa, mais diversificada e mais multifacetada. Mas a experiência também me mostrou que não é conveniente ser, ao mesmo tempo, político e comentador. Pode não ser fácil ser-se político e professor ao mesmo tempo. A dificuldade desta situação, experimentei-a quando fui líder do PSD e, ao mesmo tempo, continuava como professor. Mas, sobretudo, se se tem funções executivas, não há disponibilidade para a entrega que a educação exige. Se a política ainda se pode conjugar com a actividade docente, já a acumulação do comentário com a política começa a revelar incompatibilidade que acaba por se manifestar em várias vertentes. Primeiro porque retira distanciamento. Por maior objectividade que se procure transmitir, há sempre a suspeição desse comentário estar motivado por algum objectivo político, próximo ou remoto, que se quer alcançar. Por isso, quando comecei com os meus comentários na rádio, estava fora da intervenção política activa nacional. E quando, mais tarde, passei para a televisão, também não exercia quaisquer funções políticas partidárias de carácter executivo a nível local ou nacional. Neste último contrato que celebrei com a RTP, eu próprio inscrevi uma cláusula que corresponde ao que já se passava na TVI. De acordo com essa cláusula, o contrato não comporta nem permite a acumulação de comentário com cargo em órgãos políticos de soberania. Foi uma aprendizagem que acabei por fazer a partir da experiência da imprensa escrita. Nesses tempos em que a democracia estava a dar os primeiros passos, ao mesmo tempo em que fazia análise e comentário político, fazia também política em simultâneo. E dessa experiência retirei os devidos ensinamentos ao analisar os inconvenientes e demais aspectos políticos que daí poderão resultar. A partir daí, procurei que esses ensinamentos passassem à prática. Desde que comecei, em 93, a minha experiência como comentador na TSF, separei as águas da intervenção política activa com as do comentário. Por isso, quando fui líder partidário deixei de fazer comentário em qualquer órgão de comunicação social. Comentário é uma coisa e actuação política de responsabilidade, nomeadamente executiva, é outra.

C. de L. – Em seu entender, o que é que causou maior perplexidade ou, se quiser, maior incomodidade; as suas crónicas no “Expresso”, o seu mergulho no Tejo ou, mais recentemente, os seus comentários na TVI?
M. R. S. – São experiências diferentes. O mergulho no Tejo causou perplexidade, como diz. Causou alguma surpresa e admiração. Tratava-se de dar expressão a um acto simbólico. E o lado simbólico consistia, no fundo, em dizer-se que era preciso despoluir o Tejo. Era preciso mostrar que o Tejo devia de ser como foi noutros tempos; um lugar de remo, de vela, de natação. Foi um gesto simbólico que não incomodou tanto quanto surpreendeu.
As crónicas do “Expresso” ganharam grande dimensão por dizerem respeito ao tempo da revolução. É verdade que foram muito polémicas. Dizem que estava a criar factos políticos e que era um criador de factos políticos. Tudo aconteceu talvez por ter introduzido a técnica dos cenários. Como tinha muita informação, jogava com essa informação e projectava no futuro o que é que poderia acontecer. Depois, esses cenários concretizavam-se ou não. Mas quando se concretizavam, não por minha responsabilidade mas por ter tido razão antes do tempo, transformavam-me em causador desses mesmos cenários. E, em função do que viesse a acontecer, suscitava-me um conjunto de reacções muito complicadas, sobretudo se pensarmos que se estava em pleno período revolucionário. Foi, talvez, o período em que a minha intervenção na comunicação social foi mais polémica.
O que se passou na TVI foi muito diferente. Mais do que a polémica ou do que o conteúdo do comentário, a diferença está na audiência. Enquanto no “Expresso” estava a escrever para 300 ou 400 mil pessoas, na TVI as audiências já se cifravam ao nível dos milhões.
Estava, portanto, em face de um fenómeno mais transversal, que abrangia todas as classes, todas as idades e mulheres e homens sem excepção. O que criou maior especulação ou maior alarido, não foi tanto o teor polémico das intervenções, mas o facto do seu eco ser muito maior.

    “Numa sociedade em que o poder pode muito e a sociedade civil pode pouco, a crítica dificilmente é bem vista.”

C. de L. – Tinha consciência, com as críticas contundentes que fazia, mais dia ou menos dia, acabariam por surgir reacções mais ou menos intempestivas como a do ministro Rui Gomes da Silva?
M. R. S. – Quem anda nisto há muitos anos, sabe que isto lhe pode acontecer. E, como colaborador jornalístico, já venho desde os anos 60 e, como comentador permanente, desde 72. Já venho dos tempos anteriores à revolução e à democracia. E esta tarimba dá-nos experiência suficiente para sabermos que quem anda à chuva, molha-se. Conforme referi anteriormente, há várias formas de poder que podem ficar desagradadas com os nossos comentários. Só que há o poder que não gosta, mas respeita. Há o poder que não gosta, mas tolera. E há o poder que não gosta e, como não consegue sequer tolerar, tem dificuldade em aceitar. É, portanto, muito difícil prever se determinado poder, pelo facto de não gostar, deixa de respeitar e não consegue sequer tolerar a crítica que se lhe faz.

C. de L. – Essa crítica, para si, foi bem mais penosa pelo facto de vir do interior do governo apoiado pelo seu partido ou a sua proveniência é-lhe completamente indiferente?
M. R. S. – Surpreendeu-me, fundamentalmente, a falta de compreensão do papel do comentário. E, sobretudo, no meu caso concreto, esse comentário, feito ininterruptamente há muitos anos, tinha sido bastante mais contundente em muitas outras situações. Como não era a primeira vez que os comentários eram bem contundentes, fiquei um pouco surpreendido. Mas a surpresa foi maior quando se quis levantar a figura do contraditório e se procurou a Alta Autoridade para a Comunicação Social para discutir uma questão como esta. Surpreendeu-me, igualmente, o facto de se tomar uma iniciativa sem medir as consequências que daí poderiam resultar. E o poder, por princípio, deve, com bom senso, medir o alcance das suas iniciativas.

C de L. – Não é preciso ser-se um grande analista político e, muito menos, assemelhar-se a Marcelo Rebelo de Sousa para se concluir que a tirada de Rui Gomes da Silva não foi uma tirada isolada ou fruto de um momento menos feliz. Também confidenciou ao Presidente da República que, por detrás, estava todo um governo e, naturalmente, um Primeiro Ministro?
M. R. S. – Embora não ache interessante falar-se sobre esta matéria e percebe-se que, neste momento, já não faz qualquer sentido pegar nesse assunto, não deixo, contudo, de dizer que há uma coisa que sinto dificuldade em compreender; e muito mais pelo teor de relações pessoais e quase familiares existentes no seio da TVI. Durante duas semanas, apelei para que houvesse o bom senso de deixar tudo no quadro de uma conversa de cavalheiros. Em face destes apelos, fiquei surpreendido quando vim a constatar que os demais protagonistas não conseguiram perceber o alcance dos seus próprios actos.
Muitas vezes, somos levados a dar um desconto a situações como estas. Como são intervenções em cima da hora e sem tempo para se pensar nas consequências que daí poderão resultar, merecem-nos alguma compreensão. Mas, como no caso em apreço, quando há tempo para se pensar nas suas consequências, então o caso muda de figura.

    “Fui político quase por acaso. Quando foi preciso preencher lacunas e salvar situações de emergência, decidi dar o meu contributo ao intervir directamente na política activa.”

C. de L. – Mas tem consciência, por exemplo, que os seus comentários na TVI e a forma abrupta como se processou a sua suspensão deram uma grande contribuição à queda do próprio governo.
M. R. S. – Essa apreciação é algo exagerada. Embora considere que não me falta auto-estima, não posso exagerar ou chamar a mim aquilo que não me pertence. O Presidente da República, para dissolver o parlamento baseou-se, certamente, em milhentas razões. E entre elas não entra, obviamente, o meu episódio. Não podemos exagerar e atribuir importância em demasia àquilo que não tem. Neste caso, não se trata de falsa modéstia. Estamos apenas perante uma análise fria dos acontecimentos.

C. de L. – Mas tem consciência de que esta mistura explosiva, que congrega em si a dimensão política com a jornalística, lhe dá um poder fora do comum.
M. R. S. – Não acho que assim seja. Já me perguntaram várias vezes se tinha a noção de que os comentadores, em geral, e eu, em particular, dispomos de um poder efectivo. A minha resposta é não. Se nos dermos ao cuidado de analisar, facilmente chegamos à conclusão de que os grandes líderes de opinião e os grandes comentadores da actualidade nacional têm uma dimensão política e uma experiência política. É o caso de António Barreto que foi um político famosíssimo. Vasco Polido é, ele próprio, uma experiência política. Pacheco Pereira também tem tido protagonismo político, em momentos cruciais e essenciais da vida do PSD. Com o seu estilo celebral, tem tido um impacto muito grande através daquilo que faz, daquilo escreve e, ultimamente, do seu blogue.

C. de L. – Tem tido repercussões ao nível de uma determinada elite política mas não ao nível do cidadão comum.
M. R. S. – Tenho ouvido, também, a nível popular repercussões das suas opiniões. São pessoas com muito peso e com grandes qualificações nos comentários que produzem. Sinto-me, em muitos casos, menos influente do que essas pessoas. Poder efectivo, tem o poder político. Pode exercê-lo ou não. Mas isso é outra coisa. O poder político é programado pelo próprio poder.

    “Não é conveniente ser-se, ao mesmo tempo, político e comentador.”

C. de L. – Mas concordará que, neste momento, é capaz de ter um poder bem maior do que aquele que tinha quando era Presidente do PSD?
M. R. S. – Já me têm dito isso. Mas penso que não. É um poder diferente. O liderar um grande partido de poder, mesmo na oposição, confere a quem o exerce uma influência monumental. Essa influência permitiu-me fazer uma revisão constitucional que o PS teve que aceitar, permitiu-me fazer dois referendos com as victórias que daí resultaram e permitiu-me trazer para a agenda política um referendo como o da regionalização que o PS não queria de forma nenhuma. Por vezes, os comentadores gostam muito de se pôr em bicos de pés e de se considerarem muito importantes. Mas não os devemos maximizar nem impular o peso real que têm.

C. de L. – Se voltasse à vida política activa, para si qual seria mais atractivo, ser Primeiro Ministro ou Presidente da República?
M. R. S. – Essa é uma questão que não se põe assim com essa facilidade. Sempre que a política me tem chamado, não lhe tenho virado as costas. Não o faço por ambição mas por uma exigência que se me impõe e que resulta de um estado de necessidade. Por exemplo, só fui candidato à Câmara Municipal de Lisboa porque falharam outras hipóteses. E, por isso, senti necessidade de preencher o vazio que foi causado. O mesmo aconteceu quando assumi a presidência do PSD. Depois do tabu de Cavaco Silva e da vitória de Nogueira no partido, da derrota nas eleições parlamentares, da derrota de Cavaco nas presidenciais, da saída de Nogueira e do não avanço de Barroso, tive de preencher o vazio. É, por isso que, se me perguntam se gostava de ser isto ou aquilo, recuso-me a responder por não colocar a questão nesses termos.

C. de L. – Mas, em termos pessoais, sentirá melhores aptidões para desempenhar as funções de Presidente da República ou de Primeiro Ministro?
M. R. S. – É difícil de responder. Se olharmos para o perfil de Presidente e para o perfil de Primeiro Ministro, poderemos dizer, em teoria, que nesses perfis está presente um conjunto de qualidades que eu tenho de uma forma mais abundante ou menos abundante. Se a situação de emergência e de necessidade se tivesse levantado no passado, em teoria poderia ser uma coisa ou outra. Quando fui líder do PSD e, por função, líder da oposição, era necessariamente candidato a Primeiro Ministro.

    “No meu contrato com a RTP, existe uma cláusula que não permite a acumulação do comentário com cargos em órgãos políticos de soberania.”

C. de L. – E, neste momento, é uma hipótese que exclui de todo?
M. R. S. – Excluo porque há um candidato que tem todas as qualidades do mundo que são necessárias para ser Presidente primeiro que eu. E, ainda por cima, tem um contexto favorável. Com a maioria absoluta de José Sócrates, abre-se-lhe um caminho que outros cenários certamente não abririam. Portanto, não vale a pena discutir o sexo dos anjos.

C. de L. – E daqui a dez anos, essa hipótese não se poderá levantar?
M. R. S. – Daqui a dez anos, sabe-se lá como é que a vida política estará em Portugal. Não vale a pena estar a especular. Estarei vivo? Nem sequer isso posso garantir.

C. de L. – Voltando novamente aos seus comentários dominicais, é caso para se lhe perguntar se, agora, se sente com outro à vontade para, no novo formato do seu programa, criticar um governo que, presentemente, é de cor política diferente da sua?
M. R. S. – É exactamente a mesma coisa. Já critiquei um governo de cor diferente da minha; o do Eng.º António Guterres. Na substância, a atitude do comentador não muda. O formato, como disse, é diferente. Agora, é mais curto. Em princípio, a nova moldura do comentário vai estabilizar em cerca de meia hora. Se fosse apenas quinze minutos, seria curto. E se fosse quarenta e cinco, seria demasiado comprido. Tem também uma realidade nova. A interlocutora tem um papel diferente e mais interveniente. Estamos, portanto, perante uma realidade nova em comparação com o que acontecia na TVI. As pessoas tinham se habituado àquilo que chamava “estilo homilia”, isto é, a um estilo mais longo e mais expositivo. Tinha a vantagem das pessoas poderem acompanhar o desenrolar do raciocínio sem cortes e sem saltos aqui e ali. Agora, é um bocadinho diferente pelo facto da exposição ser entrecortada por dúvidas que são levantadas e por questões que são colocadas.

C. de L. – O facto do, agora, Primeiro Ministro ter chamado a atenção para a situação da RTP ser uma estação pública e, por isso mesmo, não se ater apenas a uma opinião como a de Marcelo Rebelo de Sousa é mais um indicador da sua capacidade de persuasão e da forma como consegue penetrar, com os seus comentários, em vastos sectores da população?
M. R. S. – Embora pense que sim, essa chamada de atenção provavelmente é determinada por duas situações a que convém prestar atenção. Por um lado, quis-se alertar para o facto das minhas intervenções se deverem complementar com as de pessoas provenientes de outras áreas políticas e com outros conteúdos. Parece-me muito bem que a lógica da minha entrada na RTP fosse complementada também, com a entrada de António Barreto que é afecto à área do próprio governo. Com esta fórmula, procura-se um maior pluralismo e um maior equilíbrio num órgão de comunicação público como é o caso da RTP. Por outro lado, essa chamada de atenção procura, também, atribuir algum peso ao papel que António Barreto vai desempenhar. E quanto mais reconhecimento se lhe atribuir, é sinal de que ainda mais importância se reconhece ao que eu possa vir a dizer. Mas só o tempo confirmará ou não esta situação.

    “Os meus comentários no Expresso ganharam grande dimensão devido à introdução da técnica dos cenários e por dizerem respeito aos tempos da revolução.”

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    “A polémica levantada pelo ex-ministro Rui Gomes da Silva acabou por me surpreender pelo facto de se querer levantar a figura do contraditório e se recorrer à Alta Autoridade para a Comunicação Social.”

C. de L. – O que acaba de referir é a demonstração da consciência desse poder que, por um lado, o afastou do interior da vida partidária e, por outro, está constantemente a orientar e a determinar o seu curso.
M. R. S. – O afastamento da vida partidária não tem, necessariamente, a ver com nada disto. Ainda não havia partidos e já fazia comentários. Esta actividade, que é uma espécie de prolongamento da minha actividade de professor e de educador, é anterior à própria democracia, à existência de partidos, à minha pertença ao PPD/PSD. Não tenho intervenção partidária porque não tenho carreira política, não sou político profissional. A minha actividade principal nunca foi a política. Só tenho tido intervenção quando alguma situação de dever e de missão me obriga a intervir. Na situação presente do PSD, essa situação não se verificou. Havia dois candidatos à liderança que se declararam, de imediato, na noite das eleições. Como não havia nenhum vazio dramático nem nenhuma situação de emergência a que se tivesse de fazer face, deparamo-nos com uma situação de normalidade. Uma nova geração avança para poder vir a exercer funções que eu já tinha exercido, noutro contexto, há uns anos atrás.

C. de L. – Mas se sentisse essa emergência e um novo apelo, avançava de novo?
M. R. S. – Se houvesse uma situação de emergência crítica, poderia, pelo menos, colocar-me o problema. Até poderia responder, não. Mas, naturalmente, colocava a mim próprio esse problema. Na presente situação, não faz qualquer tipo de sentido estar-se a colocar esta questão. E não tem a ver com o facto de dizer que prefiro comentar para ficar de fora. Simplesmente, não faz sentido, nestas circunstâncias, estar a querer intervir.

C. de L. – Foram os últimos episódios com o patrão da TVI que fizeram com que, agora, na RTP, o formato da sua intervenção se tenha revestido de uma maior formalidade e tenha perdido aquela espontaneidade que, por vezes, o levava até a perder a própria noção do tempo em televisão?
M. R. S. – Não teve nada a ver uma coisa com a outra. Cada estação tem o seu próprio formato e a sua própria lógica. E a RTP propôs-me um formato determinado que tinha a ver com a sua grelha de programas e com o seu tempo possível. Não era exactamente o mesmo modelo que existia na TVI. Foi nesse quadro que troquei impressões e ajustei a minha entrada na RTP. E parece-me que este formato está bem ajustado ao que se pretende. Na fase final da TVI, encontrava vozes que me chamavam a atenção para o facto de estar muito longo e demasiado informal. Essa informalidade, segundo me diziam, corria o risco de perder a concentração do comentário político para enveredar por múltiplas outras digressões. É verdade que havia, também, quem gostasse. Ainda não se poderá dizer ao certo como é que o programa vai evoluir na RTP. Cada semana vai-se apresentando algo de diferente em relação à anterior. É possível, no entanto, dizer que o seu objectivo é ser relativamente mais curto. Em princípio, dever-se-á aproximar dos trinta minutos e a prevalência é virada para o comentário político. Ter-se-á de ter em consideração a personalidade e o estilo próprio da interlocutora que, com todo o seu prestígio, tem a sua própria maneira de ser e que é diferente da dos meus interlocutores anteriores. É preciso não esquecer que as pessoas acabam por se lembrar apenas da última fase da TVI. Só se lembram dos últimos dois anos e meio. Mas estive lá quatro anos e meio. E os primeiros dois, que constituíram a fase do seu arranque, foram bem difíceis. O arranque na RTP, em comparação com o da TVI, é quase como que música celestial. Tive que enfrentar audiências muito baixas e vários “pivots”. Até estabilizar, foi um problema.

    “O Presidente da República, para dissolver o parlamento, baseou-se, certamente, em milhentas razões. E entre elas não entra, obviamente, o meu episódio.”

C. de L. – Notava-se que, nomeadamente, em relação a Júlio Magalhães, havia uma grande familiaridade e até alguma cumplicidade entre entrevistado e entrevistador. Esta situação acabava por cativar, com mais intensidade, o próprio espectador.
M. R. S. – Mas não foi um dado inato. Foi uma situação que se foi aprendendo e que se foi conquistando. Conhecia melhor Júlio Magalhães, do que José Carlos Castro. Mas não o conhecia bem. Só com o tempo se foi conquistando alguma intimidade, alguma empatia e alguma familiaridade. Também Ana Sousa Dias, como entrevistadora e como pessoa, é uma figura curiosa e estimulante. E o convívio semanal, gera, naturalmente, outra empatia e um novo ambiente. Com Júlio Magalhães, essa empatia de início não era tão óbvia.

C. de L. – Estamos perante uma nova forma de fazer política ou trata-se de uma nova vertente de encarar o jornalismo?
M. R. S. – Estamos, sobretudo, em presença de uma nova forma de fazer comentário político. O comentário político escrito é um comentário mais longo, mais pesado e mais discursivo. O comentário, na rádio, é um comentário que fica a meio termo; mais longo que na televisão, mas menos longo do que nos jornais. O comentário televisivo é, por natureza, mais curto e, por isso, talvez, aparentemente, mais penetrante. E, obviamente, com uma audiência bastante maior. E, nesse sentido, chega onde a imprensa escrita e a rádio não chegam.

C. de L. – Como comentador e analista político que é, prevê que José Sócrates acabe por se afirmar pela positiva e consiga, com sucesso, inaugurar mais do que uma legislatura ou vai-se esgotar por entre as novidades que rodeiam o início deste seu primeiro mandato?
M. R. S. – A essa pergunta ninguém saberá responder. Não sei se o próprio saberá. A grande incógnita é saber se aquilo que parece se vai confirmar ou não. E o que parece, à partida, é que José Sócrates não tem uma especial preparação em alguns domínios da governação. Mas, ao mesmo tempo, tem uma grande vontade de ter sucesso, uma certa determinação e é muito comedido. Prefere não arriscar a cometer a erros. O que é que isto vai dar? Poderá adoptar uma postura tão defensiva e tão limitativa que não singra nem resolve os problemas dos portugueses. E, por via disso, consegue dar a volta ao texto. Poderá, pelo contrário, arriscar e dar a volta ao texto com o mínimo de precaução e ter o sucesso suficiente que lhe permita ambicionar uma reeleição. Poderá suceder que acabe por adoptar uma situação intermédia que só se vai definir nos últimos meses do último ano. Nesta altura, estamos apenas com um mês de governação de José Sócrates. É, por isso, é muito difícil dar uma resposta.

    “José Sócrates não tem uma especial preparação em alguns domínios da governação. Mas, ao mesmo tempo, tem uma grande vontade de ter sucesso, uma certa determinação e é muito comedido.”

C. de L. – Tem, certamente, uma visão da política algarvia e um conhecimento, por mais genérico que seja, dos seus principais intérpretes. Mendes Bota conseguirá suster esta via descendente do PSD nesta região ou assistir-se-á, já nas próximas autárquicas, a um retomar da posição higemonia do PS?
M. R. S. – O que se passou no Algarve, nas últimas legislativas, é comparável ao que se passou em todo o território nacional. Tratou-se de um fenómeno global. Mesmo em zonas do PSD que pareciam inexpugnáveis, o abalo foi enorme. Veja-se, por exemplo, o concelho de Celorico de Basto onde, tradicionalmente, o PSD ganha com 50 e muitos por cento. Às vezes atingia os sessenta por cento. O PS andava quase sempre na casa dos vinte por cento. Desta vez, atingiu os trinta e oito por cento e nós descemos para os quarenta e dois e quarenta e três por cento. Ganhámos mas, também, registámos uma descida acentuada. É por isso difícil pegar nos resultados das legislativas e projectá-los para outros cenários.
Nas autárquicas, cada caso é um caso. Olhando para cada município, direi que há municípios, e agora falando de municípios do PSD, onde a tarefa é mais fácil porque há lideranças afirmadas, não desgastadas e que conseguem realmente triunfar sem grandes dificuldades. Há outros casos muito mais problemáticos.
Pergunta se Mendes Bota, com o seu estilo, pode ajudar a encaminhar o partido num estilo ou noutro? Se depender dele, penso que é sempre uma surpresa. As pessoas não o devem subestimar. Já foi considerado morto politicamente. Mas, em todas as ocasiões, tem revelado uma grande capacidade de reviver. É o que poderemos chamar de “animal político”. Percebe perfeitamente as situações e, no que depender dele, não deixará de inverter a situação em favor do PSD. Mas, como se poderá compreender, há coisas que não dependem de si. Embora o peso do Presidente da Comissão Política Distrital seja muito grande, tem também de lidar com secções concelhias e com os respectivos candidatos. É aí que vai enfrentar um verdadeiro teste. O problema está em ver-se como é que consegue afirmar a sua sensibilidade política perante protagonistas pesados como são os que estão nos diversos municípios algarvios.

C. de L. – Já se cruzou, por mais do que uma vez, com os caminhos de Lagos. A última, foi para preconizar uma maioria absoluta de José Valentim Rosado. Agora, com outro inquilino na Câmara, a maioria absoluta não irá em sentido contrário?
M. R. S. – Digamos que, neste momento, a sensação que tenho é que ainda há incógnitas por esclarecer. Está por esclarecer como é que vai ser o fim do mandato do actual Presidente da Câmara. Segundo, o que é que se vai passar com o actual Governador Civil, isto é, se se quer candidatar ou não à Câmara de Lagos. Terceiro, qual será a reacção, isto é, qual será a sensibilidade da população em face destes dois factos políticos. Lá para o verão, já se terá uma noção mais aproximada da correlação de forças. Convém, por enquanto, esperar, por um lado, o anuncio ou não da candidatura do actual Governador Civil. E, por outro, pelo balanço que se terá de fazer do mandato do actual Presidente e da perspectiva do novo mandato.

C. de L. – Está, desta vez, em Lagos, para proferir uma palestra no âmbito de um encontro rotário. As palestras e as conferências são, agora, uma forma de explorar o seu mediatismo e de dar uma maior abrangência à sua intervenção política?
M. R. S. – São simplesmente uma forma de prestar um serviço. Quando se tem a possibilidade de exprimir o pensamento em televisão, tudo se torna mais cómodo, mais fácil e mais económico. Apenas meia hora, todas as semanas e para uma audiência vastíssima, evita deslocações múltiplas para assistências que, necessariamente, são bastante mais limitadas. A estas deslocações preside uma outra ideia. É a missão de professor a falar novamente. Entendo que tenho um dever de missão, de pedagogia e, neste caso concreto, de companheirismo rotário. Como companheiro rotário que sou, deve haver em mim solidariedade que faça com que, embora não possa corresponder a todos os convites dos mais diversos clubes rotários, acabe por ser sensível a alguns deles. E quero acumular estes convites com muitos outros provenientes de várias escolas, igrejas paroquiais, associações de pais e por aí adiante. Como fico sensibilizado perante argumentos que me invocam o facto de já ter sido presidente de uma associação de pais ou de ser professor, acabo por aceitar mais convites do que, em rigor, deveria aceitar. Esta situação obriga-me a deslocações, duas ou três vezes por semana, pelo país adiante sem pôr em causa as minhas aulas, os meus pontos e demais tarefas académicas.

    “Mendes Bota não pode ser subestimado. Já foi considerado morto politicamente. Mas, em todas as ocasiões, tem revelado uma enorme capacidade de sobreviver.”

C. de L. – É um frequentador habitual da região algarvia?
M. R. S. – Sou e com muito prazer. Frequento o Algarve tanto no período sazonal em que, em termos clássicos, se vinha ao Algarve como durante o ano inteiro.

C. de L. – Um dos males que se aponta para o Algarve é o da excessiva construção, muitas vezes anárquica que tem acontecido ao longo de todo o território. Esta situação não será devida ao facto das Câmaras se estarem a financiar, em grande parte, pela própria construção?
M. R. S. – Esse é um problema que não é exclusivo do Algarve. É um problema de carácter nacional. Por todo o país, as Câmaras, sobretudo em período de crise económica, acabam por facilitar a construção e mesmo a instalação do grande comércio uma vez que essas situações lhes são bastante rentáveis.
No caso do Algarve, o período crucial da construção centrou-se em torno dos anos setenta e oitenta. Foi nessa altura que se deu o passo decisivo. E não teve apenas a ver com as finanças camarárias. Teve, sobretudo, a ver com a visão que havia do turismo. Entendeu-se que Portugal tinha uma vocação excepcional para o turismo e que o Algarve, dentro de Portugal, tem uma vocação particularmente excepcional. Em função deste entendimento, deixou-se de apostar no turismo sazonal para se dar o salto para o turismo anual. Esse período coincidiu com o aparecimento do “time-shering”, com o direito real de se passar a usufruir de habitação periódica, coincidiu com a fixação de muitos estrangeiros no Algarve, com o turismo de massa e coincidiu com os “charters”.
Esta mudança, que aconteceu em finais dos anos setenta e princípios dos de oitenta, tornou apetecível a ideia de comprar, a todo o preço, o que havia de terreno disponível mesmo que algum ainda fosse classificado como terreno agrícola. Mesmo que não estivesse próximo do mar, era aproveitado para fins turísticos. E como os empreendimentos turísticos têm de ter infra-estruturas de base, esta situação trouxe consigo a fixação dos que trabalhavam no turismo. Para além dos que já aqui viviam, passaram a viver muitos mais. Passou a ser atractivo para muito estrangeiro acabar aqui os seus dias. Todo este movimento constituiu uma autêntica bola de neve. Quanto mais unidades havia, mais unidades se queria. A partir de certa altura, o que já estava construído parecia legitimar que se construísse outro tanto. Já que o mal se tinha iniciado, era preciso levá-lo até ao fim. Como se costuma dizer, “perdido por cem, perdido por mil”.

C. de L. – Para se evitar fenómenos como este, não seria conveniente retirar às Câmaras a contribuição autárquica, agora o IMI, e fazer com o seu financiamento apenas fosse proveniente do Orçamento de Estado?
M. R. S. – Isso significaria limitar drasticamente a autonomia municipal. Mas o problema não é esse; é o da falta de planeamento. Como não houve planeamento ou ordenamento em praticamente nenhum ponto do território continental, a situação, embora mais chocante no Algarve, também tem lugar ao longo da costa alentejana e é visível em muitos outros pontos do centro e do norte do país. Este fenómeno não é exclusivo de zonas turísticas nem quer dizer que tenha a ver com turismo. Nas grandes áreas metropolitanas, o fenómeno da construção tem, fundamentalmente, a ver com a habituação.

    “A Amizade está acima das convergências, das divergências, de caminhos, de profissões, de orientações políticas ou de actividades profissionais. Quis o destino que eu e António Guterres nos tivéssemos desencontrado nos caminhos da política.”

C. de L. – É a favor do reforço do poder autárquico, da sua reformulação, da sua continuação como está ou da sua diminuição?
M. R. S. – Acho que diminuir não faz sentido. À luz dos preceitos constitucionais, não faz sentido diminuir-se o poder autárquico. Como factor de descentralização, funciona como uma espécie de equilíbrio ao nível do território. Mas a sua reformulação é mais do que necessária. Há muito tempo que a legislação sobre a forma de eleição das autarquias e sobre o seu sistema de governo está sobre a mesa. Dever-se-ia aproveitar essa oportunidade para se acabar com essa rigidez e essa uniformidade que foi importada de França nos tempos napoleónicos. Essa concepção dos municípios serem todos iguais e comportarem modelos de gestão também iguais, já está completamente ultrapassada. Quer sejam municípios de grandes dimensões, quer sejam minúsculos, alguns mais pequenos que freguesias, acabam por ter o mesmo modelo de gestão e a mesma concepção. Mas para se efectuar uma profunda reforma, acaba-se por ir contra uma cultura cívica arreigada e que levanta sempre grandes resistências. Mas essa reforma do poder local que urge fazer, além de se operacionalizar, há necessidade de o tornar mais participativo a fim de conquistar medidas que incentivem um maior interesse por parte dos cidadãos.

C. de L. – Ainda é contra a regionalização?
M. R. R. – Para ser rigoroso, nunca fui contra a regionalização. Fui contra “aquela” regionalização que, na altura do referendo, foi proposta. O mapa de repartição do país que, então, foi proposto, não tinha nada a ver com áreas metropolitanas, nem com distritos de tradição clássica nem com as regiões plano. E foi esse querer levar por diante essa repartição que, verdadeiramente, matou a regionalização. Tratou-se de um processo absurdo, não estudado, partidarizado e que apenas foi negociado em cima da hora. Além disso, a proposta de regionalização continha incongruências difíceis de explicar. Uma delas estava no facto da constituição ter separado as regiões administrativas das regiões plano. Na versão original da constituição, as regiões administrativas coincidiam com as regiões plano. Outra incongruência tinha a ver com a das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto não coincidiam, em rigor, com nenhuma das regiões plano. E como se institucionalizaram, vieram criar um factor perturbador. As consequências foram as que se viram; uma rejeição maciça daquela regionalização. Tirando o caso do Alentejo, todo o país votou contra a regionalização do PS. Agora, foi o PSD a pôr de pé um esquema de descentralização que o anterior governo deixou em banho-maria. Não sei se o PS, agora, lhe deita a mão e o leva por diante. Em muitos casos, esse esquema de descentralização é uma espécie de aglutinação de municípios num esquema supra-municipal. Chamaram a esse esquema, nuns casos de áreas metropolitanas e noutras comunidades urbanas. As áreas metropolitanas meteram alguns distritos dentro de si. Foi, por exemplo, o caso do Algarve. Mas se este caso até é fácil de entender, já outros como Leiria ou Viseu levantam algumas dificuldades em se perceber. As comunidades urbanas pegaram em áreas de dimensões astronómicas como Trás-os-Montes. Depois, o mapa nunca se chegou a completar com uns municípios dependurados, não integrados e sem opção. Em face de tudo isto, vai ser um grande teste para o governo socialista explicar o que é que vai fazer de tudo isto.

C. de L. – Admite a experiência piloto do Algarve no contexto da regionalização ou mesmo essa situação merece-lhe voto desfavorável?
M. R. S. – A Constituição sempre defendeu a simultaneidade das regiões. E essa simultaneidade tem alguma lógica, por muito que custe ao Algarve não haver a possibilidade da região piloto. Caso essa ideia fosse para a frente, metade do território continental ficaria por regionalizar. Já somos um estado regional, mas periférico como se pode constatar no caso dos Açores e da Madeira. Se, de repente, nos transformássemos num continente a várias velocidades, a confusão poderia ser total. O mais simples seria pegar no esquema das áreas metropolitanas e das comunidades urbanas. E, através delas, procurar-se-ia uma fórmula de as aprofundar e de as conjugar com os municípios. Mas, para isso, ter-se-ia de ver que poderes é que iriam obter. Até aqui, tudo não tem passado dos mapas. E sem poderes a desconcentralização, continua a não se ver a sua concretização.

    “Nunca fui contra a regionalização. Fui sim, contra “aquela” regionalização que, na altura do referendo, nos foi proposta.”

C. de L. – Como é que encara o futuro económico e político do Algarve?
M. R. S. – O Algarve tem condições únicas. O turismo dá-lhe uma posição fortíssima. Conseguiu-se evoluir para o turismo anual com um a sucesso apreciável. Como em tudo, tem o muito bom, tem o bom, tem o razoável e tem coisas menos boas. Tem, também, um nível médio muito apreciável e de qualidade efectiva. Mas para que o turismo possa ser uma actividade anual, ter-se-á de encontrar, para além do sol e da praia e do golfe, muitas outras actividades desportivas e de lazer. Ter-se-á ainda de explorar a componente gastronómica do turismo, a cultura do turismo, a componente patrimonial do turismo e até a vertente educativa. O turismo anual tem, necessariamente, de funcionar com várias idades, nomeadamente com os idosos. E esse turismo exige um estilo de infra-estrutura peculiar. Obriga, igualmente, a uma actualização permanente das estruturas de apoio de saúde, de integração social e mesmo de solidariedade social. Como estamos perante um problema transversal, pressupõe-se uma conjugação de esforços entre os diversos municípios e obriga a esbater a divisão clássica entre o Algarve do Sotavento e o do Barlavento. Obriga, ainda, a explorar ainda mais o turismo da serra como já vem acontecendo. E, pelo meio, tem que se saber lidar com problemas que começam a eclodir como o do envelhecimento da população ou com o fenómeno da imigração. Também a melhoria contínua dos pólos educativos é um desafio a vencer para que a qualidade da formação daqueles que trabalham no turismo e no turismo em geral se possam actualizar e aprofundar cada vez mais os seus conhecimentos. Para além das enormes potencialidades que oferece, o Algarve, comparativamente com outras áreas do continente, apresenta enormes vantagens pelo arranque económico que já se verificou com toda a gama de serviços que é impulsionada pelo sector do turismo. Há, aqui, mais valias e bastantes mais vantagens comparativamente, por exemplo, com Celorico de Basto onde sou autarca. Quando os algarvios se queixam daquilo que ainda não têm, podem verificar que, afinal, são muito privilegiados em relação ao interior profundo e mesmo ao interior não profundo de largas zonas do continente.

C. de L. – Tem um passado comum em organismos católicos juvenis com o Eng.º António Guterres. Com ele fez parte do grupo da Luz e de outros grupos de reflexão e de intervenção católicas. A política acabou por os separar e os seus comentários políticos ainda mais os distanciar. A amizade, entretanto, desvaneceu-se ou que lugar ainda lhe é reservado?
M. R. S. – A amizade é para vida. Está acima das convergências, das divergências, de caminhos, de profissões, de orientações políticas ou de actividades vocacionais. Quis o destino que nos tivéssemos desencontrado na política. Ele, líder do partido do governo, e eu, líder da oposição. Podia não ter acontecido. Aconteceu por acaso. E, portanto, com naturalidade houve um momento de afrontamento. Mas em questões essenciais, soubemos colocar o interesse nacional acima do interesse partidário. Como líder da oposição, cheguei a viabilizar sucessivos orçamentos por causa do euro. Fui muito criticado no seio do meu próprio partido por ter feito alguns acordos de regime que tiveram a ver com questões relacionadas com política europeia, com a política de defesa, com política internacional, com política educativa. Como comentador, algumas vezes fui elogioso e, em muitas outras, fui contundente ou mesmo muito contundente. Perguntar-me-à se isso não me custava como amigo. É evidente que me custava. Faz parte dos ossos do ofício não proteger os amigos quando lhe temos de fazer alguma crítica. E as principais que fiz a António Guterres, tiveram a ver com um conjunto de qualidades, nalguns casos, muito grande que possuía e com o facto de, em momentos cruciais, as ter desperdiçado. Ou por cansaço em relação ao partido, em relação ao grupo parlamentar, em relação à política ou por ter tido uma vida pessoal complicada ou por não ter perdoado aos portugueses não lhe terem dado maioria absoluta, notou-se uma mudança radical do primeiro para o segundo mandato. Há, de facto, até 99, uma “decisofobia”. Queria simpatizar com toda a gente e compatibilizar tudo. E, às vezes, é preciso decidir, cortar a direito e mesmo desagradar. A partir da eleição de 99, há uma espécie de desilusão com o país. Achou que o país não correspondia ao esforço que tinha feito. E essa desilusão, em termos objectivos, pressupôs o afastamento, o adiamento, o deixar correr e o deixar andar. Ora, tudo isto é muito criticável num homem inteligente, com experiência de dedicação a causas sociais e que tinha investido tanto naquele lugar e naquela carreira política. De repente, ao longo dos anos 2000/2001, fica apático e deixa cair os braços.

C. de L. – Mas os seus comentários acabaram por os afastar e sempre resfriaram a vossa amizade ou tudo continuou como dantes?
M. R. S. – Não. Pela própria lógica dos percursos, começámo-nos a encontrar muito menos do que nos encontrávamos na juventude. Também é natural que tenha ficado ferido com alguns comentários que fiz. Mas isso não afecta o essencial que é a amizade. A amizade é para a vida. Está lá e continua acima de tudo isso. Foi uma pena António Guterres ter tido condições, quase ímpares. Só não o foram por não ter tido maioria absoluta. Mas, do que dependeu da minha liderança de oposição em questões de regime, podia ter feito reformas de fundo. Mas deixou passar o tempo crucial para mexer na educação, na saúde, na segurança social, na administração pública. E quando começou a fazer alguma coisa, já no último governo com Correia de Campos ou com António Costa, era tarde demais. Como disse anteriormente, não perdoou ao país o facto de lhe ter recusado maioria absoluta em 99.

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