Um encontro com Marcelo

POR ALGARVE EXPRESS
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Numa altura em que os holofotes se viram para Belém, decidimos recordar um encontro, em forma de entrevista, com Marcelo Rebelo de Sousa que, depois de uma campanha pouco exigente, se viria a tornar o nosso Presidente. E ei-lo, agora, já com o seu estilo, em grande preparação para o dia da sua entronização. Será, como se poderá imaginar, um Presidente diferente dos que o antecederam, primeiro, pela sua personalidade e, segundo, porque os tempos que vai enfrentar serão bem diferentes daqueles que, até agora, tiveram lugar. E Marcelo com a sua irrequietude, a sua imaginação e a sua forma de intervir, vai quebrar, certamente, com uma presidência majestática, demasiado formal e dar-lhe o seu cunho bem pessoal.

Mas mais do que analisar como a presidência prestes a inaugurar vai determinar os caminhos do nosso futuro, importa dar a impressão de um encontro e da consequente conversação que não parecia ter limites no tempo. Não será preciso recordar que Marcelo, como conversador nato que é, consegue entusiasmar e desafiar as horas de qualquer noite longínqua. Foi o que aconteceu connosco. Naqueles idos de Março, o Professor não parecia dar mostras de qualquer cansaço com as horas constantemente a passar e a entrar por uma noite já alta. E tivemos de ser nós a dar mostras de que a hora tardia já não nos deixaria muito tempo para o descanso.

Com mais descanso ou não pela frente, foi uma conversa agradável e bastante abrangente. A vida pública de Marcelo começou-se a percorrer e, com a maior naturalidade, não se furtou a abordar as passagens mais polémicas, mais desconcertantes e até algumas em que o seu mediatismo foi associado também a um certo exibicionismo. E, neste particular, não podemos ignorar o seu famoso mergulho nas poluídas águas do Tejo quando foi candidato, contra Jorge Sampaio, à Câmara Municipal de Lisboa. Fizemos também questão de recordar a sua profissão de director, ao lado da de professor, quando estava à frente do semanário Expresso. Os cenários que construía e a forma como os revivia, mesmo no tom daquela conversa, deram a entender que foram momentos de confrontação, de grandes vivências e também de forte paixão naquelas alturas marcadas pela revolução. E esses tempos passados, no dizer do agora Presidente, ficam a marcar para sempre a sua história de vida.

Essa passagem pelo Expresso haveria de tal forma de o marcar que não mais se conseguiria afastar e, de um modo mais informal, de ir deixando a sua marca nos caminhos da comunicação social. Conforme nos confidenciou, essa relação continuou-o a perseguir e a determinar a sua forma de estar. Não é de admirar que tivesse continuação nas ondas da TSF e ganhasse grande expressão com a atribuição de classificação à nossa classe política, em particular, e a toda a actividade pública, em geral. Seguiram-se os famosos comentários na televisão e que começaram a ter grande audição pelo país adiante. E como a sua influência estava, cada mais, a aumentar, alguma classe política começou-se a atemorizar; a começar pelo seu próprio partido. E, neste particular, é de recordar a insurgência do então Ministro Rui Gomes da Silva que vem levantar o problema do contraditório para que o Professor, a solo, não prolongue mais as suas homilias dominicais. E o poder de Marcelo vir-se-ia a demonstrar com o governo de Santana Lopes a não conseguir aguentar o resultado da sua investida.

Estes e outros labirintos da vida de Marcelo foram objecto de uma conversação que fomos mantendo à medida que a noite ia avançando e nos revelando alguns dos escaninhos mais recatados e reservados à intimidade. Um teve a ver com as suas convicções religiosas e quando, ainda na força da juventude, integrou o grupo de jovens católicos da Luz. Era, então, seu “compagnon de route” António Guterres que, conforme Marcelo faz questão de enfatizar, a política não os conseguiu separar. A amizade continua a resistir apesar de a política poder dar mostras em sentido contrário. E como director espiritual, desses tempos de ideais e de grandes convicções, podiam contar com o Padre Victor Melícias que, a partir dessa idade de grande autenticidade, os continua a marcar para a posteridade. É por isso que, conforme nos confidencia o nosso agora presidente, a amizade com Guterres continua a persistir e a resistir a todos os contratempos que a política poderá levantar. Há convicções, diz-nos Marcelo, que resistem a todas as convulsões por mais tumultuosas que sejam.

Foi uma viagem no tempo que percorremos e que, através dela, revivemos muitos dos tempos passados. No caso de Marcelo, como protagonista e interveniente. No meu, como interlocutor e como participante de algo que não nos era assim tão distante. A história passou por ali. E continuar-se-á a escrever não na tríplice dimensão como Marcelo fez questão de enfatizar. Para trás, ficam as de professor e de comunicador. E, por contraditório que seja, a de político, a que menos o consegue motivar, é a que vai preencher a última fase da sua vida activa. Mas, já, então, o nosso interlocutor dava a entender que, quando fosse altura, protagonizaria uma candidatura para Belém.

Como demos expressão a uma conversa informal e muito de carácter pessoal e a concretizámos em forma de entrevista, todos os que a quiserem ler podê-lo-ão fazer aqui. Trata-se apenas de uma conversa cativante e abrangente com aquele que, agora, é o nosso Presidente. E o convite para a ler é um incentivo a melhor ficar a conhecer Marcelo Rebelo de Sousa.

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