Opinião

A nódoa do verão lacobrigense

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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O verão já se despediu. E o Outono está-se a iniciar e começa já a dar os seus primeiros passos. E, em terras como as de Lagos, o balanço ter-se-á de fazer. Cada época balnear é um momento de grande vitalidade que transforma e enche de dinamismo todo o nosso território com especial ênfase para a própria cidade. E se olharmos para trás, vemos multidões a banhar-se nas cálidas águas do mar, a percorrer de barco essas grutas que não mais se vão esquecer, a admirar a beleza de uma natureza que perdurará na recordação, a encher um espaço urbano que tem tudo para cativar e para preencher esse imaginário de sonhos e fantasias e a participar na animação institucional ou de ocasião que vai preenchendo as ruas de Lagos.

É que a nossa cidade, em particular, e todo o território do concelho, em geral, têm condições únicas a oferecer para que qualquer um possa escolher esta terra para uma férias de eleição. E quem vem leva consigo esse desejo de regressar e de, no seu círculo estreito ou mais alargado, divulgar tudo o que de bom o nosso verão oferece. Mas também em outras alturas do ano Lagos tem muito para dar e para deslumbrar qualquer visitante que aqui queira descansar ou que, em épocas mais calmas, queira desfrutar das nossas belezas e de tudo o que a cidade tem para dizer e para oferecer; desde a sua paisagem, ao seu património, ao seu urbanismo ou à sua gastronomia.

Toda a riqueza e toda a beleza de um território como este estão a ser procuradas e desfrutadas, cada vez mais, por veraneantes ou por visitantes de todas as proveniências e ao longo de todo o ano. Mas no que mais nos vamos fixar é neste verão que acaba de nos deixar. E poder-se-á dizer que o nome e a realidade de Lagos estão a chamar a si cada vez mais veraneantes. Se todos os verões ficam, em Lagos, marcados por grandes enchentes e por enormes multidões, este que acaba de nos deixar é daqueles que atingiu um patamar superior. E até poder-se-á dizer que a cidade soube responder. Mas há muito ainda a fazer na organização e no incremento da animação espontânea de rua, na dignificação, arrumação e valorização da venda ambulante e espaços adjacentes, no ordenamento e embelezamento das ruas do centro histórico, no arranjo e preparação dos parques de estacionamento de praias e seus respectivos acessos, no tratamento, manutenção e melhoramento dos espaços públicos, num programa diversificado de animação a elaborar e em muitos mais sectores que, para não nos desviarmos do essencial, acabamos por não mencionar.

E o essencial sobre o qual nos queremos debruçar é sobre a nódoa que ficou a manchar a nossa época balnear. Por muitas que sejam as razões e as desculpas que nos possam apresentar, não se pode aceitar que uma cidade com o nome e o prestígio de Lagos acabe por apresentar o triste espetáculo que diariamente se viu pelas ruas adiante com lixo amontoado e a espalhar um cheiro nauseabundo. Se a frota está velha e com camiões de recolha avariados, tem que se arranjar uma solução para não depararmos durante o ano e, muito menos, em próximo verão com uma situação como esta. As fotos do executivo, à frente de uma viatura de recolha de resíduos sólidos que se acabara de comprar, acabam por dar um ar de mau gosto em face do panorama com que nos estamos a deparar. O problema é tão premente que, se a Câmara de Lagos não pode, pelos seus próprios meios, resolver o problema, terá de recorrer a uma solução exterior. Continuar com a presente situação, é uma afronta à cidade e a toda a sua população. Não se pode tolerar que, depois de tanta coisa boa que se está a oferecer, tudo se venha a hipotecar porque, indesculpavelmente, o lixo começa a ser a imagem que diariamente se acaba por reter.

Em nome da cidade que temos e em nome da cidade que queremos, não nos podemos conformar nem podemos tolerar que se ponha em causa um verão de eleição por não se ter encontrado uma solução para a recolha do lixo. Não é para gerir a burocracia diária que os nossos eleitos lá estão. Há opções que se têm de tomar e a da recolha do lixo diário, com os turnos que sejam necessários, é daquelas que não se podem descurar. E, infelizmente, não foi o que vimos nem o que sentimos nas conversas diárias que tivemos com muitos residentes e muito mais visitantes. Para além da recolha, a limpeza ter-se-á de estender à lavagem de ruas, contentores e ilhas ecológicas pelo menos duas ou três vezes por semana. E aqui também sentimos um deficit acentuado no que se deveria fazer e no asseio que o nosso espaço público deveria ter.

Em face de tudo isto, poder-se-ia falar, tal como o título acaba por sugerir, na nódoa do verão lacobrigense. Mas, felizmente, o verão entre nós não foi uma nódoa. Teve muito de bom e quase se poderia dizer que foi mesmo um verão de eleição. Mas acabou por ser manchado por esse lixo amontoado ao longo de ruas a fio. Foi uma situação em constante repetição. E essa imagem fica a perdurar e a acompanhar as férias de muitos dos nossos turistas. Como se costuma dizer, uma imagem vale mais do que mil palavras. Não é certamente esta a promoção que queremos fazer ao verão lacobrigense. Mas ela aí está a acompanhar e a viajar com muitos dos nossos visitantes. É por isso que a reflexão sobre a época balnear que está a expirar, além de se debruçar sobre muitos outros aspectos, terá que privilegiar a limpeza e higiene de Lagos. E a começar desde já. Não se poderá esperar pelo dia de amanhã.

Lagos é uma cidade atraente, que sabe cativar, que tem muito para oferecer e que está constantemente a ser realçada pelas suas qualidades e pelas muitas potencialidades que tem. Adiar a recolha de resíduos sólidos, a lavagem e limpeza das ruas e tudo o que tenha a ver com seu asseio, é estar a hipotecar a sua imagem, a desfazer a sua beleza e a ofuscar esta natureza com que Lagos foi prendada e com que muito foi dotada. E a nossa missão, a começar pelos nossos autarcas, é a de promover e de valorizar tudo o que nos foi confiado. Se preservarmos e valorizarmos tudo o que nos pertence, jamais poderemos falar em “nódoa do verão lacobrigense”.

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