Opinião

As bolsas da resistência

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Foram muitas as guerras, as atrocidades e os ódios de toda a espécie a que o mundo, na primeira metade do século vinte, assistiu e em que a marcha da humanidade regrediu. Bem perto da nossa história e com o velho continente como palco de cena, a primeira grande guerra mundial eclodiu e, algumas décadas depois, uma segunda invadiu os espaços de todos nós. E, aqui mesmo ao lado, um conflito fratricida haveria de dividir uma nação e de, consigo, trazer vingança, morte e destruição. Os fuzilamentos ficaram-no a marcar e, ainda hoje, algumas feridas continuam a sangrar.

Com este passado não muito distante, um novo mundo se começou a construir e uma nova Europa reaparecia com outro rosto e uma diferente fisionomia. A União Europeia, o maior feito de uma Europa de sempre, começava a renascer e uma nova aurora anunciaria os caminhos que, doravante, cada um palmilharia. Cimentada, esta nova realidade, em valores que faziam da solidariedade uma espécie de polo catalisador, daqui se começava a partir para um encontro de povos e de diferentes gerações que esbatiam fronteiras e até o conceito de nações.

E, de repente, esta Europa, que parecia vergada ao peso da sua idade e incapaz de ultrapassar os achaques da sua antiguidade, num ímpeto fora do comum apresenta-se com um projecto inovador que vai bem para além do cidadão eleitor. Independentemente da sua origem, da sua cor, etnia ou religião, ninguém é excluído. Pelo contrário, uma nova mentalidade começa a imperar e os processos de inclusão a marcar a nossa história.

Mas este movimento, que parecia irreversível e ao qual todos faziam questão em aderir, começou a sofrer os primeiros revezes impulsionados mesmo por parte de quem o estava a gerir. Foi o que nos começou a transmitir a classe eurocrata que, em Bruxelas, se instalou e, sem percepção do curso da história que se estava a dar, se começou a burocratizar. E, de repente, este farol, no seio da humanidade, perdeu toda a sua capacidade de atracção e passou a funcionar como fonte de desmotivação.

Tudo o que de primário perdura no homem e nas próprias nações começou a emergir e rapidamente as manifestações, um pouco por toda a parte, começaram a eclodir. O Brexit foi apenas uma simples manifestação desta tendência de desagregação. Outras, como as de se erguer muros e barreiras ou de se fechar fronteiras a quem foge da morte e da destruição, caminham no mesmo sentido. Os valores que nos norteavam e que se anunciavam aos homens de toda a terra começaram a colapsar em função de exigências e conveniências diversas.

Com este movimento a alastrar, projectos, um pouco por todo o lado, fazem questão de recuperar o ódio e a segregação, acabar com o conceito de pessoa e, sobretudo, deixar de considerar o outro como irmão.A vitória de Trump, na América, com todas as suas excentricidades, representa um passo atrás em todo o percurso que a humanidade já alcançou, nesta caminhada, rumo ao infinito, que o dealbar da história, com o homem, iniciou. E com as muitas medidas segregacionistas que se continuam a anunciar, estão outros projectos que, sob o efeito de mimetismo, correm o risco de proliferar. As eleições, à porta, em vários países europeus, parecem beber da energia que os novos ventos da América vieram trazer a esta ideologia.

Mas, no meio desta avalanche de fundamentalismos e nacionalismos extremos, há quem tente resistir e, pela palavra e pelo exemplo de vida, abrir as portas a horizontes fraternos. Muitos são os que continuam a levar o conforto e a ajuda a situações de privação e onde o sofrimento é um lugar comum. É o que se passa com muitas ONGs constantemente a trabalhar e a levar uma resta de esperança a quem continua a sofrer e a sobreviver no limite da resistência humana. A par destas organizações, estão muitas outras instituições. Até governos, de quem pouco se poderia esperar, estão a trazer uma lufada de ar fresco. É o que acontece em Portugal com uma sociedade mais estendida, mais confiante e mais esperançosa em encarar o seu próprio futuro. O mesmo poderemos dizer de todos os líderes políticos que, contra a corrente, continuam afirmar o primado dos princípios de liberdade, de inclusão e do respeito pelos direitos humanos que continuarão como garantes do nosso próprio futuro.

Com outro quilate e uma grandeza maior, aparecem duas personagens que, estamos em crer, continuarão a marcar a agenda mundial e, com a sua palavra e o seu exemplo, a dar expressão à mensagem de Natal. Referimo-nos a António Guterres e ao Papa Francisco. Cada um, à sua dimensão, continua a semear a esperança e a restituir à humanidade o caminho do encontro, da inclusão e da solidariedade. Graças a esta persistência, as nuvens negras que se fazem anunciar encontrarão bolsas de resistência que impedirão o seu crescimento e a sua propagação. É sinal de que esse Nascimento distante continua, na era actual, a dizer-nos que é tempo de Natal.

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