Opinião

Independentes, em Lagos, ficaram pelo caminho

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Com as autárquicas ainda à distância da linha do horizonte, já as movimentações em Lagos se começavam a sentir e alguns putativos candidatos se apresentavam em praça pública na tentativa de poderem avaliar se, em termos práticos, tinham alguma possibilidade de avançar. E muitos foram os que, em bicos de pés, os quiseram patrocinar ou, então, a eles se vieram a associar para que, com uma boa dose de oportunismo, pudessem vir a ter também algum protagonismo. E no que a oportunismo diz respeito, é de salientar algum tipo de informação que, adulterando a sua missão, está sempre a tentar fabricar algum tipo de candidato. Ou, na falta de imaginação, a colar-se sempre a qualquer um. São fenómenos colaterais de quem não se consegue impor e busca os mais diferentes processos para dizer que ainda não está a morrer.

Posto de parte este folclore de fabricação ou de colagem sempre que se aproxima uma eleição rumo às autárquicas, é de salientar uma tal plataforma que se tentou colar a Nuno Marques e com ele fazer a sua festa. E longo foi o percurso em que os festejos duraram e em que os seus promotores apresentaram o trunfo do candidato. Mas quem está de fora, e com alguma imparcialidade, desde início viu que este projecto de candidatura não tinha possibilidade de vingar nem de continuar a alimentar os devaneios de alguns. Primeiro, porque Nuno Marques não é nenhum trunfo político. Uma hipotética sondagem terá mesmo vindo a dizer que nem como vereador conseguiria entrar. E perante a verdade das coisas, não iria arriscar o seu lugar na CCDRA (Comissão Coordenadora de Desenvolvimento Regional do Algarve). Mas como tem já algum traquejo político, não admiraria que, conforme dizem os meandros da política caseira, pudesse mesmo ter tentado negociar a sua continuação se saísse da plataforma e voltasse as costas a esta movimentação que alguns criaram em torno da sua figura.

Frustrada esta pretensão, a procura de outras figuras foi a tarefa que viria a seguir para que todo o alarido, num simples ápice, não fosse pura e simplesmente esquecido. E Maria Fernanda Afonso foi a figura que veio a seguir. Mas, depois de os ouvir, através de um texto bem elaborado, soube dizer que não. E, entre outras razões, por não encontrar um projecto político coerente em que se pudesse rever e, sobretudo, por continuar em sintonia com os valores PS. Carlos Albuquerque foi um nome que também andou no ar. Mas tudo acabou por se esboroar e por deixar na orfandade uma plataforma que, depois da festa que fizera, se tivera de remeter ao seu projecto falhado.

Com todo o vazio criado, uma figura que nem o tempo conseguiu recuperar vem, agora, implicitamente, acenar com a sua disponibilidade para dar continuidade sabe-se lá a que propósitos políticos. Se na anterior eleição o CDS/PP ainda lhe deu a mão, agora não tem quem o ouse patrocinar ou quem tenha a veleidade de o chamar para qualquer aventura política por mais falhada que seja. Mas, mesmo assim, aí está o inefável Baptista a dar a entender que também gostava de entrar em qualquer coisa que lhe pudesse dar visibilidade para retomar o que já foi esquecido e varrido para debaixo de um tapete qualquer. E por mais voltas que dê, continua a ser um produto do passado que ninguém quer agarrar por mais insistente que seja a oferta que faz. Ignorando todo o movimento de rejeição, não perde qualquer oportunidade para se insinuar ou mesmo para apregoar que bem poderia preencher esse vazio que se faz sentir, de uma forma premente, no movimento independente. E este seu grito de alma serve também para dizer que bem quereria sair da sua reforma para não deixar morrer um grupo como a da plataforma. Mas todos fazem questão de o ignorar e de passar ao lado das suas súplicas veladas ou do que subjaz nas intervenções que faz.

E com a plataforma já arrumada e considerada um projecto falhado, resta a recordação de um Lagos com Futuro. Há quatro anos atrás, agitou as águas políticas de Lagos e, pese embora as suas contradições, criou algum suspense nessa campanha de 2013. E conseguiram entrar em todas as estruturas do poder autárquico de Lagos. Mas a falta de um projecto político que os orientasse levou a que os seus eleitos entrassem em aventuras pessoais que hipotecam a sua continuidade nestas eleições locais que se avizinham. Entregue ao ímpeto de cada um, Lagos com Futuro perdeu credibilidade e, hoje em dia, torna-se difícil a sua continuidade. Mesmo que alguns dos seus eleitos teimem em persistir, o mais natural é que não encontrem condições para prosseguir. Como, por tudo e por nada, atiravam em todas as direções, perderam respeitabilidade e aceitabilidade mesmo entre os que foram seus eleitores. E não é fácil recuperar em alguns dias o que se esbanjara ao longo de anos.

Com este cenário por pano de fundo, Joaquina Matos vê diante de si uma passadeira que a impele a continuar e, quem sabe, a reforçar a sua maioria absoluta. Com os partidos tradicionais a darem colorido a esta eleição, apenas se sente no ar que dão enquadramento ao reforço da sua continuação. O PSD, em coligação alargada, não é crível que veja a sua votação muito reforçada. Apesar de contar com Artur Rego para a Assembleia Municipal, já será um feito se segurar a votação que lhe é habitual. A CDU, com Ana Paula Viana e José Manuel Freire, voltará a contar com a fidelidade de um reduto político que continua a segurar e que tudo faz na tentativa de o ampliar. E, dentro da sua área, se poder chamar a si algum descontentamento, poder-se-á alargar e com possibilidades de se reforçar. Mas no que a descontentamento diz respeito, terá como rival o Bloco de Esquerda que, em Lagos, poderá sempre ser uma surpresa. Mas contra si tem o papel apagado com que tem lidado com os problemas do município de Lagos ao longo do presente mandato.

Mas mesmo que o PS de Joaquina Matos não conte com grande oposição, poderá ser penalizado através da abstenção. É que há sectores que se vêm a deteriorar e não se vislumbra qualquer iniciativa ou sequer vontade política em os alterar. E o da higiene e limpeza de Lagos e dos espaços públicos em geral requerem bem mais atenção e uma mudança de estratégia e de intervenção. Até em ano eleitoral, tudo se continua a arrastar e parece que nada se quer alterar. O mesmo se poderá dizer em relação à proteção civil, como se pôde ver no incêndio que, na baixa de Lagos, deflagrou e mostrou as suas insuficiências. Também a cultura, que deveria ser um pólo de animação de todo o verão e transformar Lagos, na restante época do ano, em local a visitar, parece andar um pouco à deriva. E muitos outros sectores deveriam melhorar para que esta terra fosse um espaço onde apetece viver. Para isso, a contribuição de todos, a começar pelo executivo, a passar pela oposição com o seu leque variado de candidatos, é indispensável. E se os independentes, com qualidade, cá estivessem, poderiam contribuir para que o poder não se deixasse acomodar nem instalar na imprudência da sua sonolência política.

(Texto publicado na quarta-feira 24 de Maio às 1.54 e republicado na quinta-feira 25 de Maio às 15.00, sem alterações.)

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