Opinião

Os polémicos passadiços da Ponta da Piedade

FERNANDES DE SOUSA
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A Ponta da Piedade, de Lagos, poder-se-á considerar uma espécie de santuário natural. As suas arribas e configurações rochosas, em simbiose com as águas do mar, fazem daquele local um espaço que a todos consegue extasiar. Toda aquela beleza, rodeada pela imensidão do mar, transforma aquele paraíso natural em área apetecível para muitos que, sem compreender a sua dimensão universal, dela se querem apropriar em nome de uma qualquer actividade empresarial. E as tentativas de apropriação, ao longo dos tempos, sempre têm deixado em sobressalto a população. Ainda nos recordamos das tentativas de aí se implantar um hotel. E outras utilizações, com alguma sofisticação, têm causado bastante apreensão em quem quer continuar a ver uma Ponta da Piedade como um património universal e fiel à sua identidade.

Para uma área tão sensível como aquela, qualquer intervenção que a procure valorizar deverá chamar a si especialistas do ambiente, técnicos ligados à preservação e contar-se sempre com o parecer da população. É que a democracia é um processo em marcha que se tem de valorizar e não de o reduzir a uma mera votação que, no seu calendário eleitoral, não pressupunha uma intervenção num espaço com a sensibilidade da Ponta da Piedade. E, neste particular, os nossos autarcas, depois de tomarem todas as precauções, em termos técnicos, deveriam submeter o anteprojecto a uma auscultação da própria população. Sairia reforçado esse projecto de intervenção, todo o processo adquiriria outra valia e sairia valorizada a própria democracia.

Ponta da Piedade001Mas, na Ponta da Piedade, o processo em nada foi acautelado e todo ele parece inquinado com a participação de empreendimentos turísticos que deixam em sobressalto a população. Na verdade, ao longo do tempo, as suas arremetidas em nada têm vindo a contribuir para a tranquilidade de uma comunidade que tem sido sobressaltada com hipotéticas intervenções que, para a rentabilizar, a querem, de uma forma velada, retirar do domínio de todos. É por isso que ninguém poderá ficar sossegado com as recentes intervenções e com tudo o que se começam a ver em seu redor. É verdade que não poderemos diabolizar a iniciativa privada. Mas, a avaliar com o que acontece nas parcerias público privadas, a preocupação é mais do que justificada para que, em causa, não se ponha este património que é comum e tão caro a uma população como a de Lagos. E no que a parcerias público privadas diz respeito, basta recordar a abundante fatia que estamos a pagar pela facilidade com que se partiu para a que presidiu ao financiamento do novo edifício da Câmara Municipal de Lagos.

Mas, no que à Ponta da Piedade diz respeito e a toda a Costa´Oiro de Lagos, a sua valorização consiste em assistir passivamente à sua constante erosão e a uma ausência de intervenção que a deixe entregue ao seu próprio destino? Esta tem sido a política das últimas décadas de Lagos. A Ponta da Piedade, a par de toda a Costa D´Oiro, deverá ser objecto de um amplo plano de intervenção que valorize as suas arribas e a preserve da sua erosão. Mas este é um plano que não se deve limitar a uma intervenção pontual. A sua manutenção é o pilar para que tudo se continue a preservar. E, a par deste plano de intervenção, dever-se-ia ter o arrojo de partir para a construção de uns passadiços em madeira, sobre falésias e arribas, que tornassem a Ponta da Piedade e toda a Costa´Oiro em local de predileção e com projecção, pela sua magnitude, pela sua imponência e pela sua beleza, a nível nacional e mesmo além fronteiras.

Entraria no roteiro dos passadiços a visitar ao nível do território nacional e com projeção universal.

Mas uma obra com esta dimensão teria de chamar à sua execução os melhores especialistas, quer de arquitetura quer paisagistas, para lhe dar uma configuração que venha valorizar e, ainda mais, realçar a beleza de uma natureza como aquela. E toda esta execução, a nível da concepção dos próprios passadiços, teria de contar com a participação da própria população. E, infelizmente, este procedimento não tem tido tradição dentro da nossa classe política. É por isso que, em vez de se considerar positiva a indignação da população e o seu papel interventivo, se comece a olhar de soslaio para esta, que parece ser, uma forma de afrontar o poder. Mas ainda bem que o poder é afrontado quando nos deparamos com corredores de gravilha que, ao que parece, vão ser cimentados. E, por enquanto, o seu trajecto maior parece servir de ponto de ligação de um empreendimento turístico àquele santuário da nossa cidade e que dá pelo nome de Ponta da Piedade.

Todo este processo que está em marcha revela duas facetas que convém aproveitar e que a nossa classe política não poderá descurar; para seu bem e, fundamentalmente, para o bem de todos nós. O primeiro tem a ver com todo o movimento que, espontaneamente, começa a nascer em torno do que se está a fazer na Ponta da Piedade. O segundo em aproveitar esta manifestação da população para se parar e iniciar um processo de auscultação popular e que, com passadiços em madeira, nos leve a percorrer, por entre arribas, aforamentos rochosos e falésias, um panorama que corta a respiração e que se tornará no verdadeiro ponto de atração de toda a região algarvia.

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