Opinião

As chamas de um país ao abandono

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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Não é segredo para ninguém que o país se esgota nos corredores do poder que vão de São Bento a Belém. Já dizia o nosso grande Eça que o país é Lisboa e o resto é mera paisagem. E a paisagem, por mais bela que seja, está entregue ao seu próprio destino.

Foi o que vimos neste trágico domingo de 15 de Outubro. O país aqueceu e praticamente tudo ardeu. Quem percorria o centro e norte de Portugal deparava com uma paisagem rural que nos convidava a parar e a percorrer os seus caminhos, a admirar as suas aldeias e saborear a hospitalidade da sua recepção e a autenticidade da sua população.

Mas apesar de todo este património comum, essas aldeias eram ignoradas, as suas paisagens deixadas aos cuidados de gente vergada pelo peso da idade e os seus habitantes viam-se cada vez mais longe dos cuidados que deveriam ter e dos serviços que os deveriam socorrer. Era assim com hospitais e centros de saúde a ignorarem qualquer serviço de proximidade, com as escolas a deixarem as localidades, com os correios a fecharem as portas e a ignorarem a população e com pequenas agências bancárias que, nesta era digital, não querem saber de quem as sustentou e as alimentou ao longo de anos a fio. Todos os serviços os começaram a deixar e a roubar esse mínimo de qualidade indispensável a quem quer e tem direito a viver na sua localidade.

Não admira por isso que nestes tempos de imediatismo, de voragem de informação, de centralismo em torno do poder e até de economia digital se despreze, por opção ou negligência, tudo o que diga respeito ao mundo rural. E se as consequências já se viram em Junho com os incêndios de Pedrogão e se estenderam um pouco por todo o verão, tiveram o seu epicentro neste 15 de Outubro com o país a arder e a deixar as suas gentes abandonadas e deixadas à sua sorte. E a par de toda a paisagem que ardeu, muita gente, na defesa dos seus bens, acabou por sucumbir ao não resistir ao ímpeto dessas chamas mortíferas.

Para além das imagens que nos chegaram e nos mostraram aldeias atrás de aldeias a lutar desesperadamente contra grandes incêndios sem um bombeiro para as ajudar, pudemos ainda, em directo, deparar pela frente com um inferno de chamas que eclodia até onde ainda se via. E, no meio deste cenário dantesco, um simples carro de bombeiros, sem nada poder fazer, decide, já noite dentro, perante essa luta desigual, abandonar o local. Mas a população tudo fez para, a essas horas tardias, não se ver privada desse simbólico meio de proteção. Um pouco mais adiante, pinheiros de grande porte estavam a arder e confrontavam com casas que, com baldes e mangueiras, tudo faziam para não serem devoradas pelas chamas que se alteavam e ameaçavam entrar no seu interior. E eis que, entretanto, um camião de bombeiros se aproximou para abastecer nas imediações. Mas não tinha ordem para atacar essas chamas prestes a devorar as habitações.

Para além de todos os sinais de descoordenação que se evidenciaram nesse dia de chamas e tragédia nacional, sentimo-nos mais desprotegidos por nos ter sido mostrado à saciedade que o país não está preparado para fazer face a uma calamidade com estas dimensões. E não o está por se ter descorado o mundo rural, por se ter introduzido outras prioridades e por não se considerar como um todo o território nacional. E esta visão de tudo se concentrar em torno dos corredores do poder leva a que as grandes metrópoles, por força do seu peso eleitoral, concentrem todo o investimento em torno de si e se abandone o resto do território à sua sorte e deixe os seus caminhos semeados pela morte quando alguma calamidade lhes bate à porta.

É verdade que esta mudança de paradigma e de coesão nacional não se faz de um dia para o outro. Assim como foram precisos anos para a desfazer, muitos mais serão necessários para a repor. Mas a par do investimento e da aposta no mundo rural, há toda uma obra que é crucial. Passa também pelo ordenamento florestal e pela prevenção tão caros agora aos homens da nossa classe política. E se não houver temas tabu, as actividades económicas ligadas aos incêndios ter-se-ão de encarar e toda a estrutura da Autoridade Nacional de Proteção Civil, de cima a baixo, se terá de alterar. Na base dessa reestruturação, a competência e o mérito terão de ser fatores essenciais da nova ordem a restabelecer e da confiança que deve inspirar. Não seria de perdoar se as filiações partidárias continuassem a adulterar qualquer reestruturação e continuassem na base da nova organização. O mesmo se poderia dizer de qualquer ligação a actividades económicas relacionadas com a indústria do fogo. E neste particular convém aclarar que a maior fatia deste negócio vai para os meios aéreos. E a sua reestruturação passa por lhe meter mão e por lhe dar uma nova organização em torno da nossa força aérea.

Sem coragem e vontade política para encarar o problema de frente e dar viabilidade ao mundo rural, não é a demissão de uma simples ministra, como acaba de acontecer, que vai resolver o problema. É certo que, desde Pedrogão, deixou de ter condições para continuar a ocupar o lugar. Mas se esta revolução profunda não descer ao terreno, o mundo rural continuará a não ter viabilidade e a estar sujeito a qualquer calamidade como a deste 15 de Outubro.

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