Opinião

Um olhar para 2017

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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As folhas do calendário vão caindo e quase não nos apercebemos da nossa passagem no tempo. Parece que ainda há dias se estava a celebrar a entrada de 2017. E, quase sem se dar por ela, já nos estamos a despedir e a entrar num novo ano que já nos está a acenar e a dar os seus primeiros passos. E, quando assim acontece, os balanços começam-se a fazer, as retrospectivas têm lugar e todo um conjunto de análises e reflexões percorrem os caminhos que ficaram para trás e ensaiam algumas prospeções rumo a esse futuro que já está bem perto de nós.
Nestas últimas horas deste 2017 que está mesmo a expirar, olhamos um pouco para trás para ver o que ficou e o que, indelevelmente, nos marcou. E muito do que vivemos, apesar de todas as contrariedades, vai perdurar e continuar a acompanhar a nossa história pessoal ou colectiva. No que à nossa história pessoal diz respeito, há acontecimentos que a lei inexorável do tempo faz questão de nos impor e que nos vão marcar nos caminhos da vida que ainda temos de percorrer. Mas esses ficam no recato da nossa privacidade e a sua reserva implica que não lhe demos publicidade numa crónica como esta.
Resta então uma reflexão que passe pelos caminhos da nossa vida colectiva. E neste nosso percurso apressado, não esqueceremos a dimensão nacional e toda a vivência, deste ano prestes a expirar, também a nível local. E no que à vida caseira de Lagos diz respeito, a cidade, apesar de alguns percalços, tem sido governada com tranquilidade, bastante acalmia e com aquela paz social que faz com que seja retirada de qualquer convulsão ou das primeiras páginas da comunicação social. Para esta vivência sem sobressaltos a nível local, muito tem contribuído um turismo em crescimento constante, uma economia a responder às necessidades básicas que o cidadão comum tem necessidade de satisfazer e a resposta, mais ou menos satisfatória, que os diversos órgãos autárquicos têm vindo a dar.
Mas apesar de, por terras de Lagos, tudo correr dentro da normalidade, há problemas prementes a resolver, outros a encarar e toda uma lufada de ar fresco que é necessário transmitir à nossa vida colectiva. E dos que há a resolver, um prende-se com o asseio e a limpeza da cidade. Se o turismo é a nossa principal riqueza, a nossa oferta tem que se distinguir pela sua qualidade, pela forma como se é capaz de receber e por tornar bem mais apetecível tudo o que se tem para oferecer. E a primeira impressão tem a ver com uma cidade limpa, asseada, atraente e capaz de cativar qualquer visitante e de criar bem estar em todos os
residentes. E, para isso, ter-se-á de dar um volte face em todo o sector que tem a seu cargo a limpeza, a manutenção dos espaços públicos e em tudo o mais que diga respeito à imagem de uma cidade que se deve distinguir pelo seu bem receber e pelo seu saber acolher aqueles que demandam as suas paragens.
Para além da sua monumentalidade e da sua história, a cidade de Lagos é detentora de um património paisagístico e ambiental que ultrapassa o âmbito regional e que se impõe mesmo à escala universal. E desse património sobressai a Ponta da Piedade. Toda e qualquer intervenção tem que implicar a própria população. E, com a sua contribuição, terá de elevar a sua qualidade e, ainda mais, dar realce à sua visibilidade. Por isso, qualquer intervenção na Ponta da Piedade, deverá implicar o parecer da população, potenciar a sua qualidade e realçar a sua visibilidade. E a que por lá, tenuemente, se iniciou, além de merecer a contestação da população, veio-se a revelar que estava mais prisioneira de interesses privados do que do reforço da sua valorização ou da forma de se dar expressão à visibilidade de tudo o que temos de melhor. E a Ponta da Piedade e toda a Costa D´Oiro deveriam, tal como 2017 nos demonstrou, serem objecto de toda uma intervenção que lhes dessem maior visibilidade e reforçassem a sua valorização. Mas para isso, terá de haver vontade política, capacidade técnica e uma visão capaz de trazer à Ponta da Piedade e a toda a Costa D´Oiro o realce e a qualidade que ostentam.
Se a limpeza e a Costa D´Oiro são duas situações pontuais que atravessaram todo o 2017, há muitas mais que se terão de mencionar e que, ao longo de 2018, se terão de alterar. É o caso de uma oposição desnorteada e vergada ao casuísmo do dia a dia. A prova desse desnorte viuse nas eleições de 1 de Outubro em que o poder, apesar de todo o seu cinzentismo e dos seus casos pontuais, se reforçou e deixou os seus opositores vergados a um resultado humilhante.
Apesar deste reforço político, o calendário cultural ter-se-á de reforçar e, mesmo fora da época balnear, restituir a Lagos o seu sucesso de sempre. A revitalização do centro histórico de Lagos não poderá continuar a fazer parte dos bons propósitos políticos. É tempo de se iniciar e de acabar com o deserto de que as tardes e noites de inverno são pródigas. E há formas de, a par da revitalização, chamar a juventude, durante todo o ano, a dar-lhe animação. Também a diversificação das nossas actividades económicas é uma tarefa de que não se pode descurar nem de continuar a adiar. E o rol do que há a fazer para que Lagos possa respirar um ar refrescante é uma tarefa exigente; mas que não se pode adiar.
A nível nacional o país começou a respirar e a economia, contra todas as previsões, foi capaz de surpreender. Com uma economia debilitada e ainda mais fragilizada pelas agências de rating, começámos a crescer e a entrar nos roteiros internacionais e a causar admiração nos demais fóruns institucionais. O apogeu é atingido com Mário Centeno indigitado para presidir ao Eurogrupo. Uma certa euforia e um boa dose de optimismo começam a surgir e parece que todos já estamos a viver numa era nova. O cepticismo reinante dá lugar a uma euforia galopante. Os governantes estão em alta e Costa parecia que, de lés a lés, transformaria a vida de todos nós. Mas, de repente, o país é sobressaltado e alertada para a sua dura realidade; a morte do e no interior. Uns dias escaldantes semeiam a morte e a destruição e mostram as fragilidades de parcelas de um país entregues ao seu abandono e à sua solidão. A tragédia de Pedrogão, apesar da dimensão dos seus mortos e da sua destruição, acaba por ser vista como um caso pontual e, apesar do seu abanão, não manchou de todo a confiança vivida a nível nacional. A expressiva vitória de António Costa, pelas autárquicas de 1 de Outubro, é disso a demonstração e indica que o país continua a acreditar e a confiar em quem nos continua a governar. Mas, com a confiança reforçada e a autoestima engrandecida, eis que uma nova tragédia nos bate à porta, pelo 15 de Outubro, com Portugal a arder e sem que haja quem lhe possa valer. O país mostra todas as suas fragilidades e todas as suas vulnerabilidades com um interior votado ao abandono. E, no meio de tanta morte e destruição, constata-se que a maioria dos meios estão desmobilizados e os vários recantos, com as suas pessoas, votados à sua sorte.
Com a confiança a descer e sem que se consiga compreender como foi possível uma segunda tragédia de tamanhas dimensões, o país voltou à sua realidade e os índices de confiança mostraram o rude golpe na popularidade de quem nos governa. E se a oposição ainda não é alternativa, o país continua a andar e a esperar pela passagem de ano com muito mais moderação e sem a confiança que se poderia ter nos vários sectores de governação. E assim vamos passar para um novo ano que vai começar. Temos um país a melhorar mas, a nível local e nacional, com muitos problemas endémicos. E todos eles nos fazem ver que, por parte de quem nos governa, a humildade é um bem a cultivar e a vigilância é um valor a preservar. Só assim seremos capazes de estar em alerta para responder aos desafios constantes que diariamente nos batem à porta. E se a nível local convém não adormecer, a nível nacional convém não se envaidecer nem se deslumbrar por tudo o que começa a surgir em nosso redor. É a nossa obrigação quando olhamos para 2017 e quando começamos a perspectivar o de 2018.

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