Opinião

Os novos passadiços da Ponta da Piedade

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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Toda a beleza que a natureza, ao longo da Costa D´Oiro, nos oferece, tem o seu epílogo nesse pedaço de costa cuja configuração a transforma numa verdadeira preciosidade e que dá pelo nome de Ponta da Piedade. Não admira, por isso, que essa beleza invulgar tenha transformado aquelas falésias, múltiplas e diversificadas e de um colorido intenso e convidativo, em local de peregrinação para todos os amantes da natureza e visitantes de espaços de excepção.

E se a Ponta da Piedade só por si consegue exercer um poder de sedução pela magia que as suas grutas transpiram ou o dourado que as suas superfícies rochosas espalham, não admira que facilmente venha ao de cima o seu poder de atração e o forte simbolismo que exerce em toda a população de Lagos. E com a passagem do tempo, esta ligação, simbólica e sentimental, levanta constantes paixões sempre que, mesmo para as imediações, se anunciam algumas intervenções duvidosas. E foram algumas as tentativas que, ao longo das últimas décadas, se ensaiaram e experimentaram a reação da população lacobrigense. E como a oposição, até a possíveis urbanizações nas suas redondezas, foi firme e determinada, a Ponta da Piedade resistiu e conseguiu ser preservada.

E assim chegou aos dias de hoje. Mas a pressão de constantes visitantes começou a exigir alguma intervenção para preservar, para realçar ainda mais os seus dotes naturais e para criar melhores condições a todos os que a vão visitar. Um processo a iniciar. Mas, devido ao seu simbolismo, deveria contar com a mobilização e, por mais ampla que fosse, com a participação de toda a população. Mas, sem se anunciar, uns circuitos em betão começaram a rasgar o chão daquele santuário marinho de Lagos. E, logicamente, a indignação subiu de tom. Revestiu-se das mais diversas formas. Algumas menos formais como as das redes sociais.

No meio de toda a agitação, o processo retrocedeu e procurou-se chamar a população a participar e a dar a sua contribuição. Deu-se, assim, expressão a um caminho que fez com que a democracia se reforçasse e os seus mecanismos se aprofundassem. E bem necessários são os processos de chamar os cidadãos à participação. E, na Ponta da Piedade, com a população chamada a participar, a democracia participativa ganhou expressão e não se limitou a uma eleição mais ou menos formal que desce até nós em cada acto eleitoral.

Mas mais do que uma mera auscultação, este encontro com a população e com todos os que fizeram questão de dar a sua contribuição, teve consequências. Os corredores betuminosos deixaram de ter continuidade para surgirem, daí em diante, passadiços em madeira que se começaram a erguer, a preservar e a estar em consonância com a beleza e a profundidade que emanam da Ponta da Piedade.

    O desafio maior está no que virá a seguir

E se para oeste, em direcção a Porto de Mós, os passadiços já têm alguma expressão, em sentido contrário, em direcção ao Camilo, ainda necessitam de projecto que lhes dê possibilidade, capacidade de execução e integração em todo aquele rendilhado e de tom dourado que constitui o bilhete de identidade de toda a Costa D´Oiro de Lagos. Mas onde o projecto deverá ser bem mais ousado, cheio de imaginação e com um cuidado suplementar é naquele coração onde o colorido das grutas se faz espelhar na tonalidade verde e azul daquele recanto de mar. Ali, onde a respiração é capaz de se cortar e, ainda mais, por entre a sua íngreme escadaria que nos leva a refrescar nessas águas cristalinas e coloridas a beijar aquelas superfícies rochosas.

Depois deste retrocesso, bem vindo e cheio de democraticidade e que teve por pano de fundo a intervenção na Ponta da Piedade, espera-se com ansiedade, primeiro, por esse projecto de intervenção e, depois, pela sua execução. E se os passadiços que se começam a ver estão em consonância com o que, desde início, se deveria fazer, sempre depois de uma auscultação da população, o desafio maior está no que virá a seguir.

É por isso com ansiedade que se esperam os novos capítulos das obras que vão rodear a Ponta da Piedade. Se os novos passadiços, ousados e com imaginação, vierem realçar a sua beleza e serem um factor de preservação, aquela pérola da natureza marinha de Lagos ganhará dimensão e todos os que nos vêm visitar poder-se-ão extasiar ao contemplar as maravilhas daquele recanto de mar. Além da natureza sair valorizada e prestigiada, também o processo que, embora tardio, levou a esta conclusão, fomenta a democraticidade e a participação. E, então, poder-se-á dizer que todos deram a sua contribuição para o realce da beleza e da dignidade da Ponta da Piedade.

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