Parque das Freiras, um espaço de eleição votado ao abandono e degradação

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O Parque das Freiras é um dos espaços mais emblemáticos da cidade de Lagos.

Rodeado pelo pano das muralhas e por todo o cenário que estas fortificações dão àquele conjunto impar, constitui-se num recinto natural que recebe ainda mais força por toda a monumentalidade e pela historicidade que a si se associam.

Basta recordar que quase defronte, na sua ala nascente, se ergue a Igreja das Freiras. Durante anos a fio, viu-se muito degradada. Mas, graças às entidades oficiais, acabou por ser restaurada. E, felizmente, alguma atividade cultural percorre os corredores daquele conjunto eclesial.

E com toda a sua envolvência e esse passado secular, o Parque das Freiras começou a chamar a atenção e a dar mostras aos espíritos mais sensíveis que era um espaço de eleição. Nessa sequência, aí foi construído um anfiteatro que a si associava todo o enquadramento paisagístico e natural a todo o património monumental. Não admira, por isso, que os muitos e significativos concertos que aí começaram a ter lugar ficassem fascinados por aquele anfiteatro quase natural e por todo o pano da muralha que lhe dá grandiosidade e que o mergulha na profundidade da sua história.

Com este enquadramento por pano de fundo, a procura começou-se a intensificar em sucessivos concertos e o público começou-se a fidelizar. Nomes sonantes aí fizeram-se ouvir e impressionarem com a envolvência dessa monumentalidade que se erguia daquele recanto da cidade de Lagos. Foram os Madredeus que, com os seus concertos intimistas, deram profundidade à grandiosidade dessas muralhas e ao campanário dessa Igreja secular. Muitos outros vocalistas e agrupamentos musicais aí atuaram e deixaram a marca da sua passagem. Além dos Madredeus, dos Delfins, de Rui Veloso, dos Gift e de bandas de nomeada, muitos foram os que passaram pelo Parque das Freiras e aí deixaram o fruto da sua arte e da sua inspiração nesse espaço de eleição.

Parque das Freiras2.Mas no meio deste cenário, fonte de deslumbramento e de inspiração, havia um pequeno senão: a exposição desse anfiteatro natural ao vento norte que se fazia sentir e que, em noites mais ventosas, acabava por incomodar.

Esperar-se-ia, por isso, alguma intervenção que restituísse uma maior comodidade e outra sustentabilidade àquele recinto.

Em sintonia com todo o enquadramento paisagístico e monumental, era de se esperar um projecto inovador que viesse recuperar e remodelar aquele espaço de animação e de divulgação da nossa cultura, da nossa arte, da nossa música e do nosso canto. Mas, em vez dessa recuperação e dessa intervenção que lhe desse uma maior qualidade e a funcionalidade que os novos tempos requerem, tentou-se para lá projetar, praticamente sem nada se alterar, a Arte Doce e o Festival dos Descobrimentos.

Foi sol de pouca dura. A partir daí, quase que por magia, o Parque das Freiras foi progressivamente sendo abandonado e deixado à sua sorte. No anfiteatro e espaços adjacentes, a erva começa a crescer e a tomar conta de todo aquele espaço emblemático, em eras não muito recuadas, cheio de vida e de inspiração em muitas noites do nosso verão.

E com o tempo a passar restam as recordações de um parque que, em cada dia que passa, ainda mais se está a degradar e a dar uma imagem de sonolência e de uma decadência acentuada. Embora com apetências para continuar a ser um espaço de eleição, não passa agora de um recinto em acentuado estado de degradação. Uma situação que não diz bem de ninguém.

Apesar do seu abandonado e da sua degradação, o Parque da Freiras continua a ser um espaço de eleição pela sua monumentalidade, pela sua configuração, pela sua especificidade e pelas potencialidades que continua a oferecer na oferta cultural e até nas actividades de lazer. É por isso um grito de alerta e uma constante chamada de atenção para o seu estado e para a sua necessidade de recuperação.

Com o seu auditório e espaços adjacentes remodelados e bem enquadrados na moldura daquele território e com proteção de algum vento que possa soprar, os concertos e outros eventos dar-lhe-iam nova vida e capacidade de atração quer de inverno quer de verão. Mas para além do auditório e espaços adjacentes, todo o Parque requeria a conversão de alguns dos seus espaços em núcleos de lazer, de animação, em circuitos pedagógico-didáticos e em outros para se poder conviver.

E, para este polo de divulgação e animação cultural, também a Igreja das Freiras deveria desempenhar um papel forte com concertos mais intimistas e outras manifestações que a inserisse na dinâmica cultural daquele que é um espaço histórico monumental de excepção na cidade de Lagos.

E votá-lo ao abandono e degradação, como se encontra, é não valorizar a nossa história e desperdiçar um dos espaços de cultura, de animação e que, apesar do seu estado, continua a ser de eleição.

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