Hugo Pereira e o futuro da presidência da Câmara de Lagos

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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Em entrevista ao site Algarve Marafado, parceiro do Algarve Express, o vice-presidente da Câmara de Lagos e presidente da concelhia local do PS, Hugo Pereira, diz que a possibilidade de vir a ser candidato à presidência da autarquia “em momento algum foi colocada em cima da mesa”, até porque, lembra, a atual titular do cargo, Joaquina Matos, ainda tem a possibilidade de fazer mais um mandato. No entanto, garante não “voltar as costas ao concelho” se um dia o PS decidir que deve ser ele o candidato.

Algarve Marafado (AM) – Quando foi convidado para integrar, pela primeira vez, a lista do PS à Câmara de Lagos pensou que seria um serviço esporádico, por um ou dois mandatos, ou tinha já por objetivo vir a suceder a Joaquina Matos, como tudo indica que vai acontecer?

Hugo Pereira (HP) – Nada indica que isso vá acontecer. Em momento algum essa questão foi colocada em cima da mesa. Fui convidado para um mandato de quatro anos e, devido a ter uma vida profissional estabilizada, levei um certo tempo até aceitar. Mas, depois de alguma insistência e de ter avaliado o convite, acabei por fazê-lo. Na altura, nem sequer foi colocada a questão de ir em 2º ou 3º lugar. A candidata é que fez questão que eu fosse o seu número 2.

Mas o convite era exclusivamente para o mandato que se iniciava em 2013 e tem sido sempre assim, ou seja, não há aqui nenhum trabalho preparatório para um futuro que esteja pensado. É mandato a mandato. No próximo, tudo estará em aberto. E quem sabe se não será novamente candidata a Presidente Joaquina Matos que ainda pode, legalmente, fazer mais um mandato. Na eventualidade de não ser ela, o Partido Socialista de Lagos terá de escolher quem será o candidato. O facto de ser eu o atual número 2 não implica que seja necessariamente o próximo nº 1.

AM – Mas agora tem todas as portas franqueadas. Além da vice-Presidência da Câmara, é presidente da Comissão Política Concelhia do PS. Não enjeitará esse convite caso ele venha a ser feito?

HP – Não ponderei sobre esse assunto nem o PS fez ainda essa discussão. A seu tempo, se o problema se colocar, esse debate terá lugar. Se tiver de passar por mim, se o PS assim o decidir, irei avaliar se devo ou não ser o candidato. Posso dizer que, da mesma maneira com que, na altura, me disponibilizei, depois de algum tempo de reflexão, também agora não iria voltar as costas ao concelho. Aqui nasci, aqui vivi e, se for esse o caso, procurarei dar o meu melhor contributo. Mas, neste momento, não há candidato. O Hugo Pereira não é candidato à Câmara de Lagos.

    De qualquer forma, o PS apresentará sempre o melhor candidato e um grande candidato para continuar à frente da Câmara.

AM – Mas a vida política vai ser o seu futuro. Não pensa, de novo, regressar à administração hospitalar?

HP – Neste momento, tudo está em aberto.

AM – O seu pai tem já tradição nos meandros da política partidária de Lagos. E, como em tudo na vida, há sempre vantagens e inconvenientes. Essa situação traz-lhe mais vantagens ou inconvenientes?

HP – Não penso que me traga vantagens ou inconvenientes. O meu pai nunca teve qualquer intervenção naquilo que me diz respeito. Sempre foi muito ativo e continua a sê-lo, embora antes mais do que agora. Mas fá-lo por convicção e não com o sentido de pode vir a obter benefícios diretos ou indiretos. Sempre atuou em prol do concelho e não em benefício próprio ou de familiares. E foi essa a mensagem que passou para a família e para os filhos em particular. Estar nos sítios para servir e não para se servir é o seu lema e é o que nos transmite.

É fácil criar-se algum ruído sobre essa situação. Mas, por exemplo, quando eu fui convidado para integrar a lista do PS, ele foi das últimas pessoas a saber. Não teve qualquer intervenção nem no convite nem na minha decisão de o aceitar. A professora Joaquina Matos quando me foi convidar não foi por ser filho de quem sou. Fê-lo porque via que eu reunia as condições para poder ajudá-la.

    Retoma no imobiliário ajudou a reverter a situação financeira da autarquia

Hugo Pereira2AM – No que diz respeito à vida partidária, em Lagos, o panorama parece estar algo adormecido. Será por os ventos estarem a correr de feição ao PS e não ser conveniente levantar muitas ondas?

HP – É uma maneira de ver as coisas. Na verdade, acho que nem tudo está assim tão adormecido. Temos regularmente reuniões da Comissão Política, estamos a preparar uma Assembleia de Militantes, já tivemos outra no final do ano passado, bem como um jantar de Natal que reuniu quase uma centena de pessoas. Temos discutido nesses encontros a cidade e as questões partidárias. Todo este tipo de intervenção não tem sido muito virado para a população mas não é por não sentirmos falta ou por pensarmos que tudo está a correr tão bem que não há necessidade de outro tipo de atuação.

A razão prende-se com o facto dos dias serem muito curtos e também por muitos militantes pertencerem a órgãos autárquicos, quer na Câmara, quer na Assembleia Municipal, quer nas Freguesias. E estão de tal modo empenhados e atarefados com os seus afazeres que acabam por sacrificar as ações puramente partidárias.

Mas devido à nossa intervenção, enquanto autarcas, acabamos por estar presentes em quase tudo o que se faz no concelho e de estar perto das pessoas. De qualquer forma, procuramos ter, dentro do partido, equipas e fazer debates na Comissão Política e nas Assembleias de Militantes que nos ajudem e nos chamem à atenção para aquilo que corre menos bem.

Também temos procurado ter alguma representação nos órgãos nacionais e regionais do partido para que Lagos seja uma voz presente em todos esses fóruns.

AM – Veio para a Câmara de Lagos com um bom curriculum de economista e com uma boa experiência na gestão hospitalar. A recuperação económica da Câmara teve também muito a ver com esse seu conhecimento e essa sua experiência que trazia consigo?

HP – Houve um trabalho de equipa. E, a partir em 2013, quando começámos, foram feitas algumas alterações ao nível da gestão que ajudaram em muito a alterar a situação financeira, que era desfavorável.

Em conjunto com isso houve uma retoma da economia, sobretudo na vertente imobiliária. E, obviamente, também contribuiu favoravelmente para melhorar o panorama financeiro da autarquia.

Dizer que foi só por minha responsabilidade, não direi. Trata-se de um trabalho de equipa. Mas é óbvio que sou eu que tenho a responsabilidade e a competência nas áreas do aprovisionamento e financeira. Considero, por isso, que o mérito pode ser em parte meu. Mas é também em parte da estrutura, dos meus colegas do executivo e de toda a Câmara que nos ajudou a implementar essa nova estratégia que resultou. E, assim, a autarquia, desde 2016/2017, reverteu o panorama que vinha de trás. Hoje, felizmente, transpiramos uma situação financeira que nos permite colmatar algumas necessidades urgentes, quer na parte da habitação, quer na de infraestruturas, quer na educação e no apoio às atividades desportivas e culturais.

A seguir: Hugo Pereira fala sobre a situação financeira da Câmara e os projetos que tem para levar a cabo

    “Este, sim, vai ser um mandato com condições para se fazer obra”

Algarve Marafado (AM) – Apesar da boa situação financeira, a Câmara parece que se tem limitado a uma gestão corrente da situação. No primeiro mandato, em termos de obras de alguma dimensão, limitou-se à recuperação da ponte de D. Maria. E, neste mandato, até a última fase do Anel Verde não avançou. A que é que se deve o facto de estarem paradas intervenções de alguma dimensão como esta?

Hugo Pereira (HP) – Os processos não estão parados. É preciso ver que, até 2017 e uma parte de 2018, estávamos numa fase de consolidação orçamental. Havia um conjunto de obras prioritárias que, com a retoma, foram desenvolvidas. Colocámos à frente o mais urgente, enquanto que o menos urgente ficou para uma fase posterior.

No caso específico da última fase do Anel Verde, neste momento já está a decorrer a preparação de um concurso de ideias para daí nascer o projeto da terceira fase dessa intervenção.

Mas a grande obra foi a recuperação financeira da Câmara. Num mandato conseguimos, por exemplo, pagar o PAEL, regularizar a dívida às Águas do Algarve e à Algar, conseguimos limpar toda a dívida que nos comprometia financeiramente, iniciámos, também, o processo de liquidação da Futurlagos e fizemos algumas obras para além da ponte de D. Maria como, por exemplo, a reabilitação da Escola Sophia de Mello Breyner Andresen e um outro conjunto de intervenções ao nível do saneamento e de intervenções de menor dimensão.

AM – E neste mandato?

HP – Neste mandato, a situação financeira é diferente. Temos, por isso, um conjunto de obras consideráveis em projeto, em fase de adjudicação e algumas delas já iniciadas. À primeira vista pode parecer que há pouca coisa a ser feita, mas a verdade é que há muitas obras a serem lançadas e a desenvolverem-se no terreno, a curto prazo.

Por exemplo, estamos a fazer a revisão do projeto da estrada da Meia Praia que já tinha sido aprovado. É verdade que era da responsabilidade de um grupo hoteleiro. Mas acabou por não a fazer. Entretanto, já chegámos a acordo com eles. E, com a situação regularizada, estamos a rever o projeto que já tinha alguns anos, a adaptá-lo aos novos tempos e queremos ver se conseguimos ter tudo em condições para se abrir o concurso ainda este ano. Trata-se de uma intervenção de quase 3 milhões de euros.

A estrada da Luz, que foi feita há muitos anos e que quase imediatamente começou a ser destruída com ramais, é uma obra há muito desejada. Vai comportar uma zona de passeio, ecovia e ciclovia para que, em especial, a partir do parque de campismo até à vila da Luz, possa haver trânsito pedonal e ciclável com segurança. Queremos ter esta obra, que vai custar mais de um milhão de euros, adjudicada no final deste ano.

Hugo Pereira3A Escola da Luz já teve projeto aprovado. Entretanto, com a crise, caiu e está neste momento a ser revisto para ter o projeto feito também até ao final do ano.

Relativamente ao Museu, há obras a decorrer no seu interior e também vão avançar no antigo edifício da PSP para se possibilitar a sua ampliação. No total, trata-se de um investimento de cerca de 3 milhões de euros.

No centro histórico, na zona de S. Sebastião, temos a parte de saneamento já iniciada. É uma obra de um milhão de euros. Temos também uma, há muito desejada, que já está a decorrer: a requalificação da Rotunda das Cadeiras. A ideia é que fosse inaugurada no 25 de abril, mas não vai ser possível porque houve atrasos no decurso do processo, sendo expectável inaugurar durante este ano.

Depois temos o grande projeto, ao nível da habitação social, que poderá exigir um investimento entre 10 a 15 milhões de euros. Estamos em negociações com a Chesgal para ficarmos com dois terrenos que a cooperativa acabou por não conseguir construir, na zona do Intermarché. Num dos terrenos, no mais pequeno, vão ser construídos 12 apartamentos, salvo erro. Para o outro está aprovado um projeto para uma centena de apartamentos.

A tudo isto há que acrescentar outros terrenos no concelho que já são nossos e que estão em fase de projeto para neles se construir habitação social e a custos controlados, bem como lotes para autoconstrução. Esperamos lançar alguns desses projetos ainda este ano e os outro em 2020.

Ainda não chegamos a meio do mandato mas já temos muita coisa em cima da mesa. Este, sim, vai ser um mandato com condições para se fazer obra.

    Intervenção nas rotundas de Lagos

AM – No plano de atividades para este ano, para além da intervenção na rotunda das Cadeiras, também está prevista a intervenção em várias outras, através da qual se pretende dar uma identidade própria ligada aos Descobrimentos. Em concreto, o que é que vai ser feito?

HP – Essa é uma ideia que está a ser trabalhada internamente com os serviços técnicos. Pretende-se criar um modelo de intervenção que seja mais ou menos comum e relacionado com os Descobrimentos nas rotundas da cidade que venham a ser intervencionadas, bem como nas que estão na EN 125, caso chegue a bom porto a negociação que estamos a desenvolver com a Infraestruturas de Portugal para que passem para a posse da Câmara.

O que a nossa arquiteta paisagística está a estudar é uma base comum a todas elas. Depois cada uma terá no seu interior uma peça única relacionada com os Descobrimentos.

AM – A Câmara tinha algumas queixas relativas ao resultado final da intervenção que foi levada a cabo na EN 125. Pretendia, por exemplo, que fossem construídas mais duas rotundas. E, nesse sentido, creio que contactou a Infraestruturas de Portugal (IP). Que resposta obteve?

HP – Mostraram alguma abertura. Foi proposto fazer duas rotundas na zona de Odeáxere: a poente e a nascente. Onde se nota mais essa necessidade é antes de Odeáxere, no sentido Lagos/Portimão. Como é um local onde há muita atividade económica, tanto num lado como no outro da estrada, há que fazer face aos problemas que aí são detetados porque, neste momento, o que aí se vê é o caos completo. Quem circula nesse sentido e precisa de ir a uma empresa situada no lado esquerdo da estrada só pode virar ou em Odeáxere ou na rotunda da Horta 2.

Do lado contrário, quem sai de Arão e quer ir para Portimão também tem que se deslocar até Odeáxere e virar junto ao Campo de Futebol.

AM – Ainda não têm resposta da Infraestruturas de Portugal?

HP – Ainda não. Numa primeira fase, pediram-nos um conjunto de informações. Disponibilizámo-nos, inclusivamente, para suportar o pagamento de uma das rotundas, em conjunto com a fábrica que foi há pouco tempo inaugurada e estamos à espera que responda a esta nossa proposta.

Percebo que se trata de uma estrada cuja gestão está concessionada a uma outra empresa. E, por isso, a IP não tem autonomia total para tomar a decisão final, está, também, dependente da opinião da concessionária. Esperamos o mais rapidamente possível que nos seja dada uma resposta para se poder atuar e fazer as duas rotundas ou, pelo menos, numa primeira fase, fazer uma delas, a que é mais necessária.

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