Opinião

A cerveja do infante

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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A Praça do Infante é um dos locais mais nobres da cidade de Lagos. Ali com o mar a acenar, a Igreja de Santa Maria defronte e o Castelo dos Governadores e pano da muralha mais adiante, é um espaço de eleição a merecer todo o respeito e preservação.

Mas, desde que uma intervenção polémica e desproporcionada aí aconteceu, parece que aquele espaço, que deveria ter algum uso a condizer com o seu significado e a sua história, se transformou num recinto para os eventos mais inusitados e que, em alguns casos, ferem a sua dignidade e a identidade dessa praça e dessa figura distante como é a do Infante.

Para aí se decidiu atirar todos os eventos mais inusitados e mais despropositado que se possa imaginar. São os bailes de música pimba que, em noites de verão, querem para arrastar alguma movimentação. Não significa que não os possa haver. Mas não num espaço emblemático como aquele. São as marchas com uma decoração que fere o coração de uma cidade cheia de história. E são muitos mais os que destoam e não condizem com os seus pergaminhos nem com esse passado que não pode ser mutilado ou, em função das circunstâncias, ser posto de lado.

Mas é o que vemos constantemente em cada dia que passa. O exemplo mais grotesco e mais recente é o da 2ª edição do “Lagos World Beer Fest a decorrer, mais uma vez, na Praça do Infante. Aí está a ter lugar e a decorrer nos dias 27, 28 e 29 de Junho.

Trata-se de uma iniciativa que, em Lagos como noutro local qualquer, pode ter toda a razão de ser. Mas não nesse espaço emblemático e com tanto significado como aquele. E se o evento em si já agride e fere todo esse recinto e a sua área envolvente, o cartaz com o Infante a segurar uma caravela e um pote de cerveja acaba por apoucar e para menosprezar uma figura grande da nossa história, da nossa identidade e até da própria cidade. Se o espaço já é desprestigiado com esta utilização, esta figura de cartaz do Infante acaba por ser ultrajante. O mesmo se poderá dizer da Igreja que, no cartaz, serve de pano de fundo.

Não se trata de puritanismo. Mas, simplesmente, de se saber enquadrar os eventos que se queiram ou venham a realizar. E está-se a banalizar e a desrespeitar a praça do Infante ao empurrar para lá tudo o que se pretende organizar ou se venha a idealizar. E se uns aí podem ser enquadrados, outros há que aí não se podem realizar sob pena de se desfigurar um espaço com tanto significado e que requer ser preservado; até de aventureirismos como o da “Lagos World Beer Fest”.

Como o sentido crítico não imperou, a defesa dos nossos valores não soube vingar e a memória dos nossos maiores não se soube preservar, assistimos ao festival da cerveja do Infante que, com barracas e barraquinhas, mistura cerveja com pão de chouriço e outras comezainas ali na praça mais simbólica da cidade de Lagos. Não é, por isso, de admirar, ver chaminés a exalar fumo mesmo defronte da Igreja de Santa Maria. E para que o quadro seja maior e mais empolgante, faz-se questão em anunciar um SPA em que até se pode banhar e, em simultâneo, beber cerveja com o Infante a apreciar.

Está a tornar-se cada vez mais urgente uma planificação dos eventos que venham a ter lugar a curto, médio e longo prazo na cidade de Lagos. E nesta planificação terão que entrar os diversos espaços que possam servir de palco a estes eventos. E se uns, pelas suas características, até podem ter lugar na Praça do Infante, outros, como o Lagos World Beer Fest, têm que encontrar recinto mais adequado para que possam ser realidade, noutros palcos, dentro do espaço urbano de Lagos.

O mesmo se poderá dizer desses bailes populares que também são arrastados, apesar de inapropriados, para a Praça do Infante. Enquanto esta programação não existir, continuar-se-á a despejar, independentemente da sua qualidade, tudo para o interior daquele espaço emblemático da cidade. E as aberrações chegam-nos através das mais diversas manifestações. A última e mais aberrante é a da publicidade à cerveja feita pela figura do Infante.

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