Opinião

Melhor destino de praia desprezado e votado ao abandono

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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Iniciou-se mais uma época balnear. E, apesar do tempo já decorrido, a temperatura parece não condizer. Mas, pese embora algumas partidas meteorológicas, nada consegue arrefecer este sublime espaço de praia.

E, de repente, o Algarve paulatinamente vai-se transformando num ponto de confluência e de forte abrangência de povos e de culturas. Já o está a demonstrar esta primeira quinzena de Julho. Mas o que vem a seguir será constantemente a subir. E o apogeu é sem dúvida esse Agosto que transforma o Algarve numa confluência de destinos nacionais e também para onde confluem as mais diversas rotas internacionais.

Em face desta visibilidade, não é de admirar que os políticos de todas as cores e proveniências para aqui venham também repousar. E, por isso, o Algarve adquire maior projeção e passa a entrar mais intensamente nos órgãos de informação. Mas, apesar deste corrupio que atravessa as nossas praias e os nossos caminhos de verão, tudo continua na mesma e sem quase nenhuma transformação. Os problemas de antigamente continuam a prolongar-se no tempo e com graves consequências no nosso presente. E se há décadas era reivindicada uma solução, nos dias de hoje continuamos neles a tropeçar e a não ver, por entre os nossos responsáveis, quem ouse deitar-lhes a mão.

Este abandono obsessivo é transversal e abrange os mais diversos sectores da vida regional. Mas, por uma questão de economia e para se evitar dispersão, apenas nos vamos cingir a alguns que, diariamente, atormentam a vida de toda a gente. O da saúde, e mais gritante, bate constantemente à porta de todos nós. Basta necessitar-se e ter de se recorrer aos seus serviços. Se os centros de saúde ainda estão longe de responder à avalanche dos seus utentes e se os médicos de família escasseiam para cobrir largos sectores da população, estão os hospitais nem sequer estão dimensionados para satisfazer as necessidades regionais.

    Ir, de emergência, de Sagres a Faro é o mesmo que percorrer o corredor do Porto até Coimbra

HospitalEnredados na teia das suas fragilidades e das suas incapacidades constantes, tardam em responder a uma população residente e, muito mais, a uma flutuante que, pelo verão, triplica a sua dimensão. É incompreensível para uma área geográfica com tal extensão, de Sagres a Vila Real de Santo António, existir apenas um hospital de tipo central e que chama a si a exclusividade das principais valências. Ir, de emergência, de Sagres a Faro é o mesmo que percorrer o corredor do Porto até Coimbra. Só que, aqui, as acessibilidades têm outra dimensão e a rapidez consegue fazer a diferença em caso de emergência.

Mas como o Porto e Coimbra contam com várias unidades hospitalares de grandes dimensões e com valências e profissionais para todas as situações, dispõem de autonomia e de capacidade para responder a quem necessite de recorrer aos seus serviços por mais normalizados ou mais especializados que sejam.

Já pelo Algarve adiante, além do hospital de Faro, cheio de fragilidades, existe o de Portimão a quem retiram constantes valências e dimensão. O exemplo mais recente é o da ala pediátrica. Seguiu o destino de muitas mais. Simplesmente, a força da comunicação social e da opinião pública em geral fizeram com que a Ministra da Saúde, em visita ocasional, revertesse a situação. Mas o hospital de Portimão continua a necessitar de ser remodelado, dotado das valências que, entretanto, foram retiradas e de outras que requer para voltar a ser um hospital de tipo central. Só assim poderá voltar a ter uma palavra a dizer na saúde do Algarve.

Com as sucessivas reduções e na sua actual situação, continuará a definhar e a funcionar como um hospital de passagem para Faro ou para outro sítio qualquer. E, desta forma, sem possibilidades de responder às exigências mais complicadas da saúde do Algarve. Toda esta vasta franja de população residente e flutuante do barlavento algarvio sentir-se-á prejudicada e menosprezada face ao todo regional e, muito mais, face ao restante território nacional.

    Remendos, rotundas e traços contínuos que vão de Lagos até à capital de distrito

EstradaPara além da saúde, também a região algarvia tropeça num problema que afeta a população e toda a economia da região. Referimo-nos às suas acessibilidades. A remodelação da EN 125 foi anunciada com toda a pompa e circunstância pelo então Primeiro Ministro José Sócrates. De então para cá, cerca de duas legislaturas e meia passaram. E, no terreno, mais do que uma intervenção, viram-se remendos, rotundas e traços contínuos que vão, sensivelmente, de Lagos até à capital de distrito. Praticamente, em parte nenhuma se consegue ultrapassar. A excepção, além de algumas mais, é o interior de Odeáxere.

De Faro a Vila Real, apesar dos protestos subirem de tom, a via esburacada continua à espera de ser intervencionada. Resta a Via da Infante. Mas, apesar de não haver alternativa, esta é a pagar. E se preciso for, a cobrar pela autoridade tributária. Uma situação sem explicação. Mas mesmo a pagar e sem possibilidade de utilizar a 125 nos congestionamentos do Verão, somos confrontados, na Via do Infante, com um piso a ficar degradado e, em alguns troços, já em muito mau estado. Mas o utente, sem ter quem o represente, tem que se sujeitar a estas arbitrariedades e a esta penalização que sobre si se abate, quer de inverno, quer de verão.

Associado às acessibilidades estão os transportes. E a este respeito, para não nos alongar, vamo-nos ater apenas à ferrovia que atravessa a quase totalidade da região algarvia. E, sobre este problema candente, há que dizer que é deprimente o que se nos oferece diariamente ao longo da linha do Algarve. Além de comboios suprimidos e dos que não conseguem cumprir os horários, as composições, velhas e degradadas, não são limpas e lá se vão arrastando e convidando os seus múltiplos utentes a fugir e a não querer repetir essa experiência de novo. E embora se oiça timidamente falar da sua eletrificação e da renovação do material circulante, tudo se parece arrastar e sem nada se renovar ao longo da legislatura seguinte e, quem sabe, das que virão por diante.

Perante este quadro desolador, é mesmo confrangedor o silêncio dos responsáveis políticos e de todos os que, sendo eleitos para nos representar, se deixam adormecer à sombra dos sonolentos corredores do poder. Mas pior é inverter a realidade. É o que vemos em alguns pronunciamentos dos nossos deputados sobre a saúde em geral e sobre o mundo saudável que se vive a nível regional.

É caso para se dizer que se está mesmo perante o desconhecimento da situação ou, para agradar ao mundo partidário, perante uma capitulação. A começar pelos autarcas em geral, pela sua representação em órgãos como a AMAL, pelos deputados individualmente ou mesmo colegialmente, tudo parece desfasado ou alheado duma realidade como a presente. E se não há quem tenha disponibilidade para nos representar, é difícil a um eleitor saber em quem deve votar. E depois queixam-se dos altos índices de abstenção ou, perante os tortuosos caminhos da política, do alheamento da população. É a forma de manifestar o seu protesto perante um Algarve desprezado e votado ao abandono.

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