Opinião

COVID-19: Os dias que nunca pensamos viver

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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Um mundo em constante interacção fazia, nesta era global, com que o homem se considerasse um cidadão à escala universal. Apesar dos nacionalismos começarem a surgir e de algum chauvinismo estar mesmo a prosperar, as constantes viagens interplanetárias entraram de tal forma no nosso modo de vida que já nada era de estranhar e até de nos familiarizar com povos, antes, de proveniências exóticas.

No meio desta familiaridade, uma economia se construiu e um mundo novo se ergueu. Era um turismo em marcha sempre a prosperar, companhias de aviação sempre no ar, a restauração sempre a puxar pela imaginação e toda uma cadeia de alojamentos locais a dar resposta a uma procura cada vez mais em alta.

A par desta globalização que o turismo mais activamente nos veio mostrar, também a indústria fazia parte desta placa giratória com a laboração de umas componentes a ter lugar em países distantes e com outras, subsidiárias daquelas, a laborar noutros horizontes. Esta interdependência ainda mais incrementava a globalização com trocas diversas e dependências mútuas.

No meio desta organização e de todo um estilo de vida, tudo apontava para que 2020 fosse uma espécie de apogeu para o turismo sempre a prosperar e para todo um modo de vida que, nas sociedades ocidentais, caminhava e prosperava quase sem fim à vista. E no meio deste crescente constante, Portugal começava-se a situar como descoberta turística de um país a transbordar de monumentos, de sol e de mar.

Mas eis que quando tudo corre mesmo de feição, algumas nuvens negras se começam a levantar e a criar alguma apreensão. Tudo tinha a ver com um surto epidémico que se começa a levantar em terras longínquas da China. Apesar da sua distância, as imagens que nos chegam começam a assustar e a interdependência económica leva, mesmo no Ocidente, a fechar muitas fábricas por falta de peças produzidas no Oriente.

Mas para lá desta interdependência industrial que começa a soçobrar, está toda uma economia que começa a colapsar. E tudo porque um vírus, imprevisível e de consequências que ainda se estão longe de avaliar, começa a mexer com a saúde de constantes populações e a paralisar a vida de continentes e nações. Os casos mais gritantes, depois da China com muitos contornos ainda por revelar, chegam-nos de Itália e da nossa vizinha Espanha com os seus sistemas de saúde prestes a colapsar e com toda a vida social retida e confinada ao interior de cada casa.

A par destes dois países, onde a calamidade mostra a sua face através de uma acentuada mortandade, estão os demais sempre a crescer com números de casos e de vítimas que nos fazem estarrecer. E Portugal não é excepção. A cada dia que passa os casos vão-se avolumando com números de mortos que vão retratando a tragédia que, de um momento para o outro, pode bater à porta de todos.

E perante uma tragédia tão avassaladora, a impotência é total e nem mesmo a ciência é capaz de dar uma resposta à escala mundial. Parecia que a natureza estava subjugada e dominada pelos avanços científicos. E por isso os investimentos estatais, de farmacêuticas ou organismos mundiais foram baixando a sua guarda. A investigação, oficial ou privada, passou a obedecer ao lucro que daí se poderia obter. Basta, a título de exemplo, dizer que a descoberta e produção de antibióticos já vem de meados do século passado. De e então para cá, com eficácia e significado, pouco mais se viu e se descobriu.

Agora, está tudo a correr contra o tempo a ver se se consegue um fármaco ou uma vacina que consiga neutralizar a pandemia e dar-nos a alegria de podermos viver com a tranquilidade, a convivência e a abrangência de outras eras. É já com esta distância no tempo que encaramos alguns dos dias atrás em que trabalhávamos, que passeávamos, que conversávamos, que abraçávamos e que beijávamos aqueles que se cruzavam nos caminhos da nossa vida.

A investigação vai continuar a fazer o seu caminho. E acreditamos que, mais cedo do que tarde, nos possa ainda vir a salvar. Mas já muitos ficaram pelo caminho. É por isso que, nesta relação do homem com a natureza, a soberba não pode ter lugar nem jamais se poderá baixar a guarda. Por isso, a grande lição é a do respeito pela natureza e a da constante investigação para se preservar esta relação.

Mas independentemente dos tempos excepcionais que estão a decorrer, tudo deveremos fazer para preservarmos a nossa relação com a natureza. Só assim poderemos evitar que nos voltem a surpreender dias, de séculos ou de milénios, como os que nunca pensamos viver.

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