Opinião

As ramificações do trumpismo nas nossas instituições

ANTÓNIO GUEDES DE OLIVEIRA
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Como uma semente daninha, toda a forma de estar do inquilino da Casa Branca e o seu modo desabrido de atuar foram-se espalhando e ganhando adeptos um pouco por todo o lado. Sem que nos estendamos por paragens remotas ou mais longínquas, basta que percorramos a geografia do continente europeu para ver como este “modus operandi” se começou a propagar e a fazer escola onde menos poderíamos esperar ou sequer levantar uma suspeita qualquer.

Foi o que aconteceu no velho Reino Unido que, apesar das suas vetustas tradições, soçobrou aos ventos que Trump, em seu redor, fazia soprar e ditar uma nova ordem. Os artífices do Brexit apenas deram expressão a esse asfixiante populismo que se propagava e alastrava um pouco por todo o lado. Basta ver, também, o que se está a passar em latitudes distantes da União Europeia como Roménia, Hungria ou Polónia que teimam em infringir as normas da sã convivência democrática para acabar com a diversidade, os normais circuitos judiciais e se comece a atemorizar quem ouse levantar a voz da oposição e ou alguma forma de contestação.

Mas também, embora em formato minoritário, pela Europa da pluralidade, do respeito pelo direito, pela cidadania e pela liberdade de cada um, os populismos não param de aumentar, os atropelos à diversidade estão em crescimento constante e os fanatismos que desrespeitam os direitos humanos já fazem parte de um horizonte não muito distante. E tudo porque esta onda, que a América fortalecia, parecia ganhar legitimidade e crescia a olhos vistos com o maior à vontade.

Embora sem esta amplitude, também entre nós esta onda que fragiliza a democracia tem vindo a crescer com os partidos institucionais a darem-lhe força para ainda mais se afirmar. É o que acontece com o Chega a dar os primeiros passos no interior das nossas instituições e em crescendo sucessivo devido às portas que se lhe estão a franquear e aos caminhos que se lhe estão a abrir. Basta ver o que, de uma forma mais despudorada, está a acontecer nos Açores. Embora as forças políticas tradicionais tudo façam para se demarcar, a sua postura tem vindo ainda mais a reforçar esta mentalidade e a abrir-lhe espaços no seio da nossa sociedade.

Mas se este “trumpismo” que se tem vindo a espalhar está bem patente em certas instituições, muitas das que o combatem também contribuem para a sua proliferação e para a sua propagação. É o que acontece com certas actuações onde a transparência fica muito a desejar e com arranjos de bastidores constantemente a proliferar. Foi o caso da nomeação do nosso representante para a Procuradoria Europeia. Depois do concurso se realizar e do candidato se selecionar, surge uma nomeação que foge a todo o processo realizado e ao candidato selecionado. Embora em moldes diferentes, o Presidente do Tribunal de Contas, por ter ousado tomar posição diferente do que o governo gostaria, vê a sua continuação hipotecada e a sua substituição oficializada. O mesmo se poderá dizer dos tiques de domínio e subversão dos mecanismos da democracia com a farsa da eleição dos presidentes das CCDRs.

Mas se este desprezo pelos valores da verdade, da justiça, da democracia, da ética, nossa história e do bem comum foi sendo cultivado, durante quatro anos, pelo consulado de Trump, a sua exportação estendeu-se a muitos territórios nacionais e, em escala mais reduzida, teve repercussão em muitos dos nossos locais. E Lagos não é excepção. Veja-se o que acaba de acontecer com a demolição da chaminé principal do Algarve Exportador. Ali ia nascer uma urbanização com a chaminé em ponto central como memória dessa era industrial; a das conservas em Lagos. Mas, de repente, a urbanização mudou de mão, as máquinas começaram a laborar e, num ápice, esse símbolo de um passado recente acabou por se derrubar. E tudo acontece porque, desde os promotores aos responsáveis políticos, o mercantilismo que Trump endeusou sobrepõe-se ao valor da nossa história e à memória desse nosso passado recente. E sem essa visão de futuro que passa pela preservação do passado, a chaminé do Algarve Exportador foi abaixo. A cidade foi mutilada e roubada de um dos símbolos da indústria conserveira de Lagos.

Outro dos símbolos do trumpismo entre nós está nessa forma unipessoal como a maioria das nossas instituições são geridas e como os seus corpos directivos aí fazem questão de se perpetuar e de, por todos os meios, continuarem a agarrar o lugar. É o caso, a título de exemplo, de uma instituição conceituada que teve eleições para os seus corpos directivos. E o presidente, para continuar à sua frente, apareceu com uma molhada de votos na mão para engrossar a votação. São, à escala reduzida, perversões da nossa democracia e que, há muito, deveriam estar arredadas do nosso dia a dia. Mas não.

A transparência ainda é um caminho longo a conquistar, a ética um valor a cultivar, a história um bem nosso a preservar, a democracia um caminho a continuar e a relação com a comunidade um imperativo que deverá estar sempre presente em quem é nosso representante. E as autoridades locais, numa hora como esta, deveriam, pela informação, manter um diálogo assíduo com a população. Primeiro, com uma informação semanal sobre a COVID 19 no concelho, sobre o trabalho que se está a desenvolver, sobre as instituições a que, em caso de suspeita e de infecção, se poderá, dentro de portas, recorrer e, de uma forma didática, sobre os procedimentos que todos deverão ter. Começa também a ser premente, nesse diálogo que sempre deve haver entre eleito e eleitor, que haja uma explicação sobre a demolição da chaminé principal do Algarve Exportador. É o que o exige a nossa história e a memória da indústria conserveira de Lagos.

Se na América o trumpismo sofreu um golpe abissal, é fundamental que, entre nós, deixe de ter expressão e que passemos também a inaugurar uma nova era assente na razão dos nossos valores. E estes passam pela dimensão ética que nos deve inspirar, pela verdade a cultivar e pela justiça e solidariedade a preservar.

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