Apesar da selva de betão, com a consequente descaracterização da nossa paisagem urbana, se dever maioritariamente à acção dos nossos autarcas, mesmo assim ter-se-á de dizer que a sua obra acaba por ser maioritariamente positiva. Esta constatação não poderá inibir qualquer cidadão do exercício da sua cidadania e de chamar a atenção para o que, em sem entender, ofende e agride a nossa vivência como comunidade. E, no dia a dia, muitas são as situações que, devido a intervenções, cumplicidades ou simples omissões dos nossos autarcas, causam atropelos e constantes perturbações à vida do cidadão. E este acaba por ser a vítima indefesa sobre a qual acaba por recair todo esse agir que não foi determinado a pensar no seu bem estar.
Se os casos são por demais conhecidos e se todos os dias tropeçamos nas suas extravagâncias ou sofremos as suas consequências, há uns que pela sua visibilidade e pela sua actualidade prendem a nossa atenção e perturbam, no dia a dia, a vida de qualquer cidadão. É o que acontece com o corte da Estrada Nacional 222, na freguesia de Olival. Como via estruturante que é, por si circulam diariamente milhares de veículos, ligeiros e pesados, para os mais diferentes destinos. A sua importância, a nível local, regional e mesmo nacional, não impediu os nossos autarcas de permitirem que as obras da auto-estrada, aí em construção, acabassem por a encerrar e, aos milhares de utentes, os andassem a empurrar por caminhos estreitos e tortuosos. Diariamente, camiões, carrinhas, automóveis e toda a espécie de outros veículos se embrenham por esses percursos labirínticos sem quaisquer condições só porque a 222 foi cortada para a construção de uma auto-estrada. E esse corte, com toda a sua perturbação, há cerca de três meses que continua a vigorar e, pelo que se vê no terreno, não se sabe por quanto mais tempo vai continuar. Diziam-nos alguns técnicos dessa grandiosa via em construção que as obras da auto-estrada poderiam prosseguir sem que a 222 fosse cortada e vedada à circulação. Seria mais difícil mas perfeitamente possível. Para se criar um regime de maior facilidade contou-se, no que aos nossos autarcas diz respeito, com a sua permissividade. Será caso para se perguntar se na hora da decisão contou mais as taxas a aplicar ou os transtornos e os prejuízos ao cidadão que daí iriam resultar.
Outro exemplo a reter tem a ver com o troço de auto-estrada, em fase de conclusão, junto à Escola do 1º Ciclo, ex escola primária, a funcionar em Lever, no lugar da Portelinha. Mesmo diante de si, passa outra via rápida de grande circulação a bastante profundidade e a dar mostras a qualquer transeunte da sua evidente perigosidade. É verdade que é dotada de redes de protecção. Mas se até para qualquer adulto aquela é uma situação que não deveria existir, então para crianças seria de todo de se evitar. Basta observar-se essas dezenas de metros de desnível para se chegar à conclusão de que essa não deveria ser a metodologia a deitar mão ao projectar-se uma obra como aquela. Se o desnível da auto-estrada, naquele lugar, era para se manter, ter-se ia de recorrer a um projecto diferente que colocasse acima de tudo a segurança de qualquer utente. E o ideal para aquele lugar seria o da construção de um túnel para a auto-estrada poder passar. Algumas casas e bastantes terrenos deixariam de se expropriar e, fundamentalmente para quem percorre aquelas paragens, a segurança seria um valor a estar em primeiro lugar. Mas, também, de acordo com a opinião de alguns técnicos das empresas de construção, a obra encareceria; mas seriam evidentes os benefícios que daí resultariam. E para se evitar que este troço de auto-estrada não trilhasse o caminho da facilidade, seria necessária a intervenção dos nossos autarcas. Graças à sua intervenção seria possível que, em vez de seprivilegiar o facilitismo da construção, se desse primazia à segurança do cidadão. Mas a avaliar pelos depoimentos que conseguimos recolher, também aqui a facilidade só foi possível por contar com um elevado índice de permissividade; e mais uma vez por parte dos nossos autarcas. É caso para se dizer que a população está cada vez mais arredada dos centros de decisão. Em vez de todo o agir dos nossos responsáveis políticos, quer ao nível do poder local, quer ao nível do poder central, ter como destinatário o cidadão, enreda-se em jogos de influência que visam apenas a sua manutenção. E, por isso, acima de tudo está o poder e a forma de o manter.
Se assim não fosse, há questões menores que mereceriam outra atenção e que, apesar da sua menoridade, afectam a vida da população. Referimo-nos ao estado das estradas, dos caminhos e outras veredas por onde circulam máquinas, camiões e outros veículos de grande porte ao serviço destas auto-estradas. Por todo o lado se assiste ao seu piso esburacado. Até a 222 se começa a deformar e a mostrar os seus buracos. Mas pior que este itinerário principal, estão outras vias secundárias onde os buracos as começam a atravessar e a impedir que aí se possa circular com alguma normalidade só porque os estragos dos últimos tempos lhes roubaram a sua funcionalidade. Mesmo com estas vias esburacadas e completamente deformadas, os seus utentes, com a maior dificuldade, por aí continuam a circular por falta de alternativa a que possam recorrer. E todo este martírio rodoviário poderá continuar se as nossas autoridades, a começar pelos nossos autarcas, não obrigarem as empresas de construção a repararem estas pequenas vias de circulação. Caso tudo esteja para continuar, e com o estado destas pequenas vias a piorar, ter-se-á, mais uma vez, de dizer que as empresas construtoras depararam com um regime de facilidade criado, em parte, por este regime de permissividade.
Mas neste processo não estão sós. Acabam por contar com a companhia da Direcção Regional do Ambiente. Com revolvimentos de terras, aterros de grandes dimensões, aplanamento de vales, eliminação de linhas de água e outras alterações de relevo como acontece no lugar das Maloeiras, no sítio em que a Freguesia de Lever confronta com a Póvoa de Canedo, esta instituição regional parece estar fechada nos seus gabinetes climatizados e não querer ver estes actos que, pelo que se constata no terreno, se acabam por dar por consumados.
Nestas como em outras situações, a actuação de quem decide tem de ter em conta, prioritariamente, o interesse das populações. E estas não se defendem com omissões cumplicidades ou com actuações como as que temos vindo a ver no terreno. Para se inverter esta tendência torna-se imperioso que, ao menos nesta fase final de obras, os caminhos e demais itinerários secundários sejam reparados e a 222, no troço cortado, seja devolvida à circulação para não se penalizar ainda mais o cidadão. Será a forma de se inverter esta tendência de se ceder a facilidade através de um não pronunciamento feito de permissividade.






