Cultura

Caiu o pano sobre a Arte Doce

POR NUNO RODRIGUES
Tamanho da Letra: A-A+

Depois de um ano de interregno, ditado por questões de ordem financeira, este ano a Arte Doce regressou, mais modesta, mas a cumprir a sua principal função: contribuir para a preservação e revitalização da doçaria tradicional da região, confeccionada à base de amêndoa, ovos, figo e alfarroba.

Tradição

Sendo esta 26.ª edição a última com Júlio Barroso à frente dos destinos da Câmara, prestes a passar o testemunho, este terá feito questão de que o evento fizesse parte da agenda cultural do concelho, apesar de, segundo o próprio “os constrangimentos financeiros ditados pela crise continuarem mas de forma mais ligeira”, não permitindo ainda muita margem de manobra para grandes investimentos culturais.

Este ano, o evento aconteceu não apenas pela vontade do executivo liderado por Júlio Barroso, mas graças ao esforço e união entre as seis freguesias do concelho, algumas entidades estratégicas como a Região de Turismo do Algarve, alguns patrocionadores, bem como com a empresa municipal Lagos em Forma, gestora do Complexo Desportivo de Lagos e algumas entidades do concelho como IPSS’s, associações e clubes desportivos; “só assim foi possível garantir a realização da feira, com a ajuda de todos”, enfatizou Júlio Barroso no seu discurso na cerimónia de abertura do certame.

Recorde-se que, em anos anteriores, os gastos logísticos e operacionais necessários à realização da Arte Doce, ficavam inteiramente do lado da Câmara Municipal. Mas este ano a crise ditou um outro cenário de uma ainda maior proximidade e entreajuda das várias entidades envolvidas na sua concretização.

Mudanças de local

O certame, em edições anteriores, logrou “saltitar” de local em local, procurando-se uma melhor solução para a sua realização que, reunisse consenso entre todos, autarquia, doceiras e visitantes. Após vários anos no acanhado espaço da Reforma Agrária e depois no mais espaçoso e demasiado ventoso Auditório Municipal (Parque das Freiras), a Feira Arte Doce acentou arraiais no Complexo Desportivo de Lagos. Mas vamos ver até quando. Na realidade, apesar das muitas infra-estruturas existentes em Lagos, sem uma que se adeque exactamente a este tipo de eventos ou certames, a verdade é que será muito difícil arranjar-se um espaço, ao ar livre ou coberto, ideal e que retire àquela feira a sensação de um espaço algo acanhado e abafado e que, de todo, não dá ao evento a grandeza que merece. Ainda assim, a utilização do Pavilhão do Complexo Desportivo de Lagos parece ter o condão de reunir em torno de si condições mínimas que permitem que, quer as doceiras e artesãos, com as suas bancas, quer os visitantes, possam estar devidamente protegidos de ventanias e venarias mais indesejadas, como acontecia noutros espaços abertos, além de que permite, com um palco montado no mesmo recinto, aos vendedores e visitantes, desfrutar de toda a animação musical e cultural enquanto continuam a vender e a comprar, apesar das transacções e conversas ficarem demasiado prejudicadas pelo alto volume da música.

Participações

Segundo dados fornecidos pela autarquia, “este ano a participação voltou a registar níveis expressivos, verificando-se a presença de mais de três dezenas de bancas ocupadas com Doçaria, outras tantas com Atesanato e, à semelhança de anos anteriores, várias bancas de entidades locais (IPSS e Associações), perfazendo um total de 73 participações no interior do Pavilhão”.

Concursos

Uma das características da Arte Doce, reside na componente dos concursos, através dos quais são distinguidos os melhores trabalhos em termos estéticos (Concurso Arte Doce) e outro que premeia o sabor e a qualidade de confecção (Concurso Qualidade na Tradição).

Enquadrados no Concurso Arte Doce (tema livre e tema obrigatório), antes da abertura da feira, o júri reuniu, apreciou e pontuou os trabalhos a concurso (cujas fotos pode apreciar em baixo), tendo sido os vencedores dados a conhecer no dia 27 de Julho.

Em relação ao concurso “Qualidade na Tradição” que premeia os melhores doces nas categorias: Doce Fino, Morgado, D. Rodrigo e Doce de Figo, o júri reuniu durante o segundo dia do certame, sendo a lista dos vencedores já conhecida.

Este ano, os visitantes tiveram oportunidade de votar nos seus trabalhos preferidos, no denominado prémio “Escolha do Público”, que foi dado a conhecer no último dia da feira.

Artes plásticas de mãos dadas com a doçaria

Este ano, a autarquia lançou o repto à participação de duplas de artistas plásticos locais e doceiras que pretendessem expor as suas obras de arte, ou seja, peças de grande volumetria, desenvolvidas em doce.

Neste âmbito, estiveram expostos dois trabalhos, extra competição, que resultaram da parceria de duas duplas criativas (veja fotos em baixo), compostas por um artista plástico e uma doceira: Ana Rijo (Artista) e Andreia Gomes (Doceira) que apresentaram o trabalho intitulado “A Náufraga e o Surfista” e Henrique Pereira (Artista) e Maria da Piedade Pacheco Inácio Cavaqueiro (Doceira) que apresentaram a obra com o título “Mar”.

Cerimónia de Abertura da Feira

O primeiro dia da feira ficou marcado pela cerimónia de abertura que havia de começar com vinte minutos de atraso e se prelongar por umas intermináveis duas horas, pontuada por dois grandes momentos, “pingados” com imúmeros discursos, cheios de palavras de circunstância e os quais não cabe aqui esmioçar.

A cerimónia começaria com uma homenagem prestada à artesã lacobrigense Maria Cristina Candeias, por esta ter sido distinguida, pelo seu trabalho elaborado em palma (a peça “toalha de mesa”), com o 1.º lugar na modalidade de “Artesanato Contemporâneo” do Prémio Nacional de Artesanato 2013, instituído pelo Ministério da Economia e do Emprego, através do Instituto de Emprego e Formação Profissional. O trabalho encontra-se em exposição na banca da Associação de Artesãos do Barlavento, presente no recinto da feira.

O segundo momento, que viria a ocupar a maior parte da cerimónia, seria a homenagem aos autarcas lacobrigenses, conforme o delibrado na Reunião de Câmara de 17 de Julho e proposta por Júlio Barroso. Esta homenagem de auto-condecoração, consistiu na atribuição de medalhas de “bons serviços municipais” a todos os cidadãos que integram ou integraram os órgãos autárquicos municipais e as freguesias. Acto que, segundo o Presidente da Câmara se justifica tendo em conta a dedicação dada por todos à autarquia e à cidade nos últimos anos e por nesta altura os seus mandatos não se renovarem por motivos de imposição da lei autárquica.

No final da cerimónia, foi a vez de Júlio Barroso ser agraciado com um voto de louvor, por proposta do vereador António Marreiros.

Público

Na sexta-feira, talvez por ser véspera de fim-de-semana, e uma vez que a abertura se deu ao final da tarde, o número de pessoas presentes era ainda muito modesto. Mas o mesmo não se pode dizer da segunda noite. O algarve Express voltou ao recinto da Feira, na noite deste sábado e constatou que o Pavilhão estava cheio. Como não há duas sem três, regressámos uma vez mais, no último dia a escassas duas horas de cair o pano sobre a 26.ª edição da Arte Doce para além do muito público presente ainda chegavam mais. E algumas doceiras já tinham pouca coisa para vender, especialmente as que foram premiadas (veja em baixo a lista das vencedoras.

Animação

Com um programa mais modesto, essencialmente apoiado em artistas e instituições culturais do concelho, o primeiro dia foi preenchido com o Grupo CantaroLar da Santa Casa da Misericórdia, que interpretou algumas canções tradicionais portuguesas e o Grupo Pular da Santa Casa da Misericórdia, que apresentou um momento de Danças Tradicionais Portuguesas e a finalizar, o concerto com o músico Pedro Barroso, o ponto alto da noite.

O segundo dia contou igualmente com Danças Tradicionais, mas desta feita pelo Centro de Estudos de Lagos, a que se seguiu o seu Grupo de Cavaquinhos. Para além da dança e da música, a animação daquela noite foi preenchida com a animação do TEL – Teatro Experimental de Lagos. O grande concerto da noite ficaria a cargo da Banda da Sociedade Filarmónica Lacobrigense 1.º de Maio.

O último dia da Feira, começou com a entrega dos prémios, pelas 18.30 a que se seguiu o Concerto pela Academia de Música de Lagos pelas 19.30. A dança regressaria abrindo a noite com uma Demonstração de Dança pelas alunas do Estúdio Gwen Morris. Pelas 20.30 o Grupo Coral de Lagos fez um pequeno apontamento musical a que se seguiria, pelas 21.00 o Concerto pela Orquestra Ligeira do Grupo de Amigos do Chinicato. O Fado e a Música Ligeira, na voz de Marta Alves, conduziram ao cair do pano sobre mais uma edição da Arte Doce.

Arte Doce com maior grandeza

Com muitos pontos positivos e alguns negativos em relação a edições anteriores que se lhe podemos apontar, a Feira Concurso Arte Doce, continua a ser um dos principais eventos que promove a cidade de Lagos e que dinamiza e diferencia a agenda cultural do concelho, pelo menos em finais de Julho e pelo verão, altura em que a cidade vê, com aqueles que nos escolhem para passar as suas férias, aumentar substancialmente o número de pessoas.

No entanto, há muito que a Arte Doce precisa de ser impulsionada e ganhar um maior destaque e uma maior grandeza e não continuar no chove não molha, dos últimos anos. E se é verdade que a crise é um factor, sem dúvida perturbador, em todas as frentes, sobretudo no que a eventos culturais diz respeito, não é menos verdade que não é poupando verbas em eventos importantes e estratégicos para a cidade como a Feira Arte Doce e com atitutes de continuidade, sem pensar mais além e sem sermos ambiciosos, que Lagos poderá ser melhor e maior. Só este poderá e deverá ser o caminho. Esperemos então que, com ou sem crise, os tempos de mudança que se aproximam nos tragam algum ar fresco.

Lista dos Premiados do Concurso “Arte Doce”

Grande Prémio Arte Doce 2013
Maria Eugénia Militão

Tema Livre

1.º Prémio
Bolodoce
2.º Prémio
Maria Eugénia Militão
3.º Prémio
Lucília Maria Baptista

Tema Obrigatóro “Artes e Ofícios Regionais”

1.º Prémio
Lucília Maria Baptista
2.º Prémio
Gracinda Baptista
3.º Prémio
Luísa Mariano

Lista dos Premiados do Concurso “Qualidade da Tradição”

Melhor Doce Fino: Lucília Baptista
Melhor D. Rodrigo: Isabel Gonçalves
Melhor Morgado: Maria Conceição Eiras
Melhor Doce de Figo: Portradição, Lda

Prémio Escolha do Público

Tema Livre: Nélia Figueiras e Glória Furtado
Tema Obrigatório: Nélia Figueiras e Glória Furtado

A Feira Arte Doce 2013, decorreu no Pavilhão do Complexo Desportivo de Lagos, entre sexta-feira, 26 de Julho e domingo, 28 de Julho.

Veja aqui algumas das fotografias da Arte Doce que seleccionámos. Clique na imagem para ampliar.

.

Etiquetas: , ,

Comentar

Todos os direitos reservados.

Diário Online Algarve Express©2013

Director: António Guedes de Oliveira

Design & Desenvolvimento por: Webgami