Sociedade

O vandalismo da estação

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O núcleo museológico não passou de mais uma promessa dita ao vento

Ainda está na memória da população os ecos da celebração dos 100 anos da chegada do caminho de ferro a Lagos. Nesse tempo, a cidade engalanou-se para receber essa máquina a vapor que a aproximava mais do resto do país e do mundo. Além desta aproximação e de tudo o que representou em termos de mobilidade e de circulação, a chegada do comboio a Lagos revestiu-se de um sentido simbólico. Outrora, desta ponta do Algarve, as caravelas partiram por esses mares adiante transformando-se em ponto de partida e de chegada. Alguns séculos depois, com o aparecimento do comboio, de novo se acentua essa vocação longínqua de saída e de entrada.

E com os silvos do comboio, veio esse edifício, agora já secular, que se conseguiu perpetuar na memória de sucessivas gerações que percorreram os seus corredores. Com efeito, o edifício da estação, com uma traça bem própria e um estilo sóbrio mas bem peculiar, é daqueles edifícios que urge preservar. Até isso foi entendido pelos gestores da Refer, quando embalados pela onda da especulação imobiliária, decidiram reformular o perímetro da estação e até construir um novo edifício; mas sem adulterar o antigo que aí se iria perpetuar com novas, diferentes e nobres funções. Para si estava destinada uma nova funcionalidade; a de pólo museológico destinado a receber quem entrava na cidade. Mas como nos habituamos a ver, sempre que sobre algum edifício pairava alguma indefinição ou não se soubesse o que fazer, lá surgia a ideia pomposa de núcleo museológico de alguma coisa qualquer. Foi o que aconteceu com a estação dos caminhos de ferro de Lagos.

Com os anos a passar, e já lá vão para cima de uns bons pares de anos, as suas portas encerraram e um silêncio de abandono e solidão abateu-se sobre aquele edifício tão característico como é o da estação. Entregue à sua sorte, começou a funcionar como abrigo, no seu alpendre interior, de quem se lá ia amparar. E, de repente, aquele corredor interior por onde passava um mar de gente, transformou-se num refúgio de sem abrigos. Apesar de alguns apelos que se fizeram ouvir, não houve uma mão de cariz social que fosse ao encontro de quem lá se abrigava nem se sentiu que os responsáveis pelo imóvel lhe deitassem a mão e travassem a sua degradação e o vandalismo que já se sentia em redor de si. Todo o interior do seu relógio tão característico desapareceu e apenas a estrutura metálica em ferro sobreviveu.

Apesar de todas as portas e janelas estarem encerradas, as que estavam viradas a nascente para o alpendre interior começaram a ver os seus vidros partidos e muito daquele recinto vandalizado e transformado num amontoado de cartões, cobertores e colchões em mau estado e para lá levados por quem, ocasionalmente, pernoitava por aquelas paragens. E com tudo destruído na sua parte exterior, parece que ainda escapava o seu interior. Mas eis que, de repente, parte das suas portas estão arrancadas e todas as dependências internas da estação são devassadas. Mas, para além da devassa, está a destruição de todo o recinto interior da estação. E parece que já ninguém quer saber do que por lá se está a passar. Associado a todo esse vandalismo de vidros partidos, de portas arrancadas, de destruição daquele interior, está o fenómeno da marginalização que aí estacionou e que, pelos vistos, por aí ficou e vai perdurar. E ninguém é capaz de fazer o que quer que seja para evitar que o vandalismo continue a degradar esse edifício que nos prometeram que era para preservar. Longe já vão essas sessões solenes em que as autoridades locais, as da Refer e outras institucionais proclamavam alto e bom som que a estação era para preservar e se iria transformar num pólo museológico que funcionaria como uma espécie de centralidade e de referência de toda aquela área que a envolvia. E pelos tempos fora continuou-se a proclamar que o edifício da estação, com a sua traça, seria para preservar. De tempos a tempos, para que o tema não caísse no esquecimento, lá tudo voltava a ser recordado e até parecia que tudo seria preservado.

Mas, infelizmente, a memória dos nossos autarcas, de responsáveis da Refer e de outras autoridades institucionais acabou por se perder e já nem ousam travar o vandalismo e consequente degradação que, nos últimos tempos, se abateu sobre a estação.

O Algarve Express vez uma reportagem fotográfica para que os seus leitores possam perceber o verdadeiro estado de degradação em que se encontra o antigo edifício da Estação. Clique nas fotos para ampliar.

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