Ausência de remodelação da Ponte de D. Maria cria as maiores dificuldades de acesso à Meia Praia

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Ao longo de muitos anos, a velhinha ponte de D. Maria integrava o traçado da estrada nacional 125 que, de uma ponta até à outra, atravessa todo o Algarve. A partir da construção da ponte de Molião, o seu movimento passou a ser bem mais reduzido ao servir, prioritariamente, de via de saída e de entrada à movimentada estância balnear da Meia Praia. Mas, apesar do seu movimento ter diminuído nos primeiros anos, com o tempo a passar começou a aumentar e a sofrer o desgaste dos anos.

Apesar da sua longevidade e da intensidade da sua utilização, via os anos passar sem ser sujeita a melhoramentos ou a obras de manutenção. E, por isso, foi sem surpresas que, nos primeiros meses do ano, uma avaliação veio chamar a atenção para os problemas que a estão a afectar e para a instabilidade de parte da sua estrutura. Em face deste parecer, seria de esperar que um projecto de reabilitação fosse de imediato elaborado e que o concurso para a sua restauração fosse, sem delongas, realizado. Assim o exigia toda a estrutura hoteleira e de restauração da Meia Praia bem como os milhares de turistas que, em cada época balnear, demandam o vasto areal daquela baía.

​Mas, em vez do que seria normal, procurou-se que alguma entidade privada, como o Pingo Doce ou outra mais assoberbada pelos prejuízos do encerramento da ponte, a pudessem reabilitar poupando o erário público de mais uma fatia que seria da sua incumbência. E neste querer chutar responsabilidades, eis que enfrentamos um verão com a ponte de D. Maria encerrada e com a Meia Praia altamente afectada. Se uma entidade avalizada fosse avaliar os prejuízos que se estão a causar ao verão da Meia Praia, facilmente chegaria à conclusão que dariam para mais do que uma reparação da ponte de D. Maria.

​Embora todos tenham consciência de que os prejuízos sejam muito superiores aos 800.000€ do custo de reparação e, por isso, haja alguma incompreensão e manifestações contra esta situação, tudo adquire um maior mal estar quando se começam a avaliar as prioridades da Câmara Municipal de Lagos. Enquanto deixa para trás uma obra que causa abundantes prejuízos à cidade em particular e ao município em geral, disponibiliza 1.200.000€ no projecto de arranjo da cobertura do parque de estacionamento da avenida. Há cerca de dois anos que lá estava à espera que um particular lhe deitasse a mão e ficasse com a sua exploração. Mas o irrealismo das exigências e os custos elevados fizeram com que ninguém se interessasse com aquela exploração e com que a Câmara se sentisse obrigada a ser ela a deitar-lhe a mão. Poder-se-á dizer, naquele jogo tão ao gosto da nossa classe política, que não é a Câmara que está com a incumbência dos arranjos da cobertura do parque de estacionamento da avenida. Essa é uma obra que está na mão, e por conseguinte, é da responsabilização da empresa municipal Futurlagos. Mas, por maiores que sejam as portas transversais, sabemos bem qual é o fundo do poço das empresas municipais. A factura última acaba sempre por ser paga pela Câmara Municipal que o mesmo é dizer pela população em geral.

​Em face do exposto, vem mais uma vez ao de cima a (i)responsabilização das consequências de uma determinada gestão. Por norma, a nossa classe política sai ilesa dos actos da sua gestão por mais arbitrários que sejam. Refugiada na gratificante penalização do voto quando ele chegar, tem penalizado a população, com consequências a todos os níveis, que todos estamos a pagar. Esse acto de gestão de optar pelo arranjo da parte superior do parque de estacionamento, em detrimento da ponte de D. Maria, seguramente não aconteceria se as consequências que daí vão resultar pudessem penalizar os próprios decisores. É evidente que esta é apenas uma pequena gota de água dentro do vasto panorama de decisões que mereceriam explicações por parte de quem gere os nossos destinos públicos.

Enquanto não houver responsabilização dos actos de gestão por parte dos administradores públicos, vamos continuar a assistir a situações semelhantes às da ponte de D. Maria e a verões postos em causa como este verão na Meia Praia..

​Artur Vaz
Professor e Jornalista

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