Sociedade

As barracas da avenida

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A cidade de Lagos era um espaço limpo e asseado por onde dava gosto passear e desfrutar as suas artérias. Através das suas ruas labirínticas, das suas praças mais abertas ou das suas avenidas mais espaçosas, podíamos contactar com uma beleza urbana que dava gosto descobrir e com uma limpeza que ainda mais nos convidava a usufruir os seus mais diferentes recantos.

Mas apesar de todo um capital que se foi construindo ao longo de anos a fio, eis que tudo se começa a hipotecar por se deixar entrar a cidade numa espécie de auto-gestão e por se sentir a ausência de uma mão que a deveria dirigir. É o que se começa a constatar com uma venda ambulante desregulada, com uma limpeza por fazer e com esplanadas a exigir uma maior regulação e uma maior integração no tecido urbano de Lagos. E no meio deste caos que se começa a instalar, sobressai a falta de limpeza que a todos começa a preocupar. E pelos desabafos que ouvimos dos nossos responsáveis maiores, o problema vai continuar por começarem a escassear peças para os veículos de recolha em fase de manutenção. E, assim, deparamos com ruas por limpar, com contentores a exalar um cheiro pestilento e, de uma forma geral, com a ausência daquela manutenção indispensável a que esta urbe secular exiba o seu fascínio e o seu poder de atracção. Até as praias que, noutros tempos, eram limpas com assiduidade, agora, após os ventos de sueste, exibem toda a sua sujidade.

E com um panorama cada vez mais desolador dentro de portas, eis que a avenida, sacudida pelos ventos de norte que, com frequência, a costumam varrer, parecia escapar ao ambiente geral e oferecer o clima natural para quem quisesse alargar a sua visão, percorrer o seu extenso empedrado ou, simplesmente, se quisesse fascinar com aquele lençol de água a caminho do vasto horizonte de mar. Mas nem a avenida parece escapar a esta desarrumação e a algum mau gosto que se começa a instalar. Ao longo do seu percurso, começam-se a erguer alguns quiosques de gelados com uma estrutura plastificada que em nada contribui para embelezar ou, ao menos, para evitar a degradação daquele espaço tão aberto e convidativo. A par destas estruturas plastificadas, ergue-se outra junto à travessia para a Meia Praia completamente desfasada de tudo o que se vê ao longo daquele extenso passeio. E para completar o ramalhete, uma estrutura fixa, já com os papéis meios queimados e desbotados pelo sol, anuncia os passeios de barco que os turistas podem fazer à Ponta da Piedade ou às grutas das suas imediações. Mas por maiores que sejam as atracções, aquela apresentação não é convidativa para qualquer incursão como as que se podem fazer pela Costa de Oiro de Lagos. Muitas outras estruturas, mas amovíveis, se estendem ao longo daquela avenida a desafiar quem se predisponha para mais um passeio de mar. Exibindo a sua grande variedade, são as que menos agridem a qualidade que a avenida deveria apresentar.

Mas se, na generalidade, as diversas estruturas da avenida facilmente se podem retirar, algumas começam a aparecer com carácter definitivo. É o que se pode verificar com essa estrutura metálica que ousaram implantar mesmo em frente do Mercado da Avenida. Trata-se de uma estrutura pesada e de difícil remoção e que, pelo seu aspecto e porte pesado, configura uma forte agressão em relação ao espaço em que se situa. Se há normas de preservação referentes a todo o centro histórico, não se compreende como é que numa zona tão sensível como aquela se vai implantar uma estrutura metálica que a consegue desfigurar.

​Mas ela ali está a par de todas as outras a dar mostras de que alguma coisa está a falhar e de que estruturas amovíveis deixaram de obedecer a uma linha padrão que contribuísse para dignificar e valorizar um espaço como aquele. E sem qualquer orientação, todos os caminhos são possíveis. É o que nos está a dizer aquela estrutura metálica completamente desenquadrada e sem qualquer ligação com a dignidade da própria avenida. Mas mais do que essa estrutura em si, o que nos pode atemorizar é o que pode vir a seguir. Com efeito, sem um projecto de valorização em que as diversas estruturas da avenida se possam integrar, vamos deparar com barracas a aumentar em catadupa por falte de uma mão que saiba orientar e valorizar um espaço tão nobre como é o da Avenida dos Descobrimentos de Lagos.

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