Por norma, as transferências, associadas ao mundo futebolístico, acontecem todo o verão. Mas atingem maior expressão quando Agosto começa a caminhar e sobretudo quando se está a aproximar do seu termo. Trata-se de um procedimento habitual que entretém os mais apaixonados do mundo do futebol. E, quantas vezes, a informação, sem outros motivos a que se agarrar, dá às transferências um destaque que, em outras circunstâncias, não seria de imaginar.
Mas este verão, para além das transferências do mundo futebolístico, outras estiveram no ar e relacionam-se com as eleições autárquicas que se estão a aproximar. O seu período auge teve lugar quando a época balnear estava prestes a iniciar-se e quando as diversas candidaturas se começavam a perfilar e a apresentar os rostos que as protagonizam. Mas à medida que uns eram seleccionados, outros sentiam-se postos de lado. E, como sempre acontece, expectativas pessoais houve que ficaram frustradas e outras sem poderem dar expressão à ambição que alimentavam e aos interesses que acalentavam. E como a frustração, aos que ficaram de fora, foi o sentimento que mais os passou a dominar, decidiram procurar outros braços políticos que os pudessem acalentar.
Foi o que se acabou por ver com abundante expressão no seio do PS de Lagos. O partido entendeu que era tempo de mudar e de inaugurar um novo ciclo político. Mas os que já lá estavam e aspiravam continuar, recorreram às ameaças de abandonar a sua família política. E outros já com história e com o seu tempo passado fizeram questão de mostrar ao partido que ainda continuavam a mexer e que não olhariam a meios para poderem concorrer. Foi o que aconteceu com José Alberto Baptista. Inconformado por ser sempre posto de lado, não olhou ao facto do seu tempo há muito já ter passado. Numa ânsia de protagonismo desmesurado, andou a ver que formação política o poderia acolher. E depois de bater a várias portas e tentar coligações, foi, em desespero de causa, parar aos braços do CDS-PP. Uma opção de difícil percepção. O mais natural é que o CDS-PP, com Batista e Artur Rego entrosados, não consiga eleger quem quer que seja aos órgãos autárquicos de Lagos. Vá-se, por isso, lá saber porque é que Alberto Baptista, nestas circunstâncias, acaba por concorrer por esta força política! A resposta é só uma. A ânsia de protagonismo e uma ambição fora de tempo e capaz de perturbar a lucidez e o próprio discernimento.
Outros, por quererem continuar e por motivos que, em parte, se acabam por aproximar dos de Alberto Baptista, não mostraram predisposição em ceder o seu lugar nem em dar mostras que se estava a inaugurar um novo ciclo político. Foi o que aconteceu com Joaquim Pedro Cruz. Há doze anos atrás, sem qualquer ligação ao Partido Socialista, apareceu pelas mãos de Júlio Barroso e cresceu à sombra desta sigla partidária. Agora, até pelo espírito da lei de limitação de mandatos, era tempo de terminar e de regressar ao banco de onde saíra. Mas este não foi o seu entendimento e, numa de ressentimento, alia-se à sigla dos auto intitulados de independentes aos órgãos autárquicos de Lagos. E, assim, Pedro Cruz, apesar de ter crescido politicamente à sombra de PS de Lagos, decidiu seguir em frente e abraçar o movimento independente.
Por arrastamento, membros da ainda Junta de Freguesia de São Sebastião, cujas funções não tinham continuação, decidiram seguir as pegadas do seu chefe de fila. Foi o que aconteceu com Victor Batalha.
Mas as saídas do PS não ficaram por aqui. Houve quem, já alheado das lides políticas mas ainda filiado, quisesse agora regressar e integrar um lugar de destaque na campanha para as autárquicas. Foi o que aconteceu com José António Carreiro. Há anos embrenhado na direcção da Lucinda Anino dos Santos, parecia que por ali haveria de ficar até que alguém o viesse substituir. E talvez porque essa ocasião se aproxima a passos vistos, decidiu que era altura de disputar a união das juntas de freguesia de Santa Maria e São Sebastião. Mas como dentro de portas não tivesse lugar, decidiu rumar a outras paragens. E como ancoradouro, teve os independentes que passou a ser uma espécie de vazadouro dos descontentes do PS.
É verdade que há ainda a destacar figuras menores do PSD que, também, aí foram parar. É o caso de Ana Margarida ou de José Nobre. Mas os nomes maiores são os do PS e têm uma explicação. Estamos em fim de ciclo no que às eleições autárquicas diz respeito. E o PS é um partido de poder e não consta que o vai perder. Há então que conquistar uma posição e tudo fazer para não perder a função, no caso de uns, que tinha sido adquirida e, no caso de outros, a ambição que vinha sendo reprimida. E como cheirava a poder, aqueles que não o puderam manter ou que deixaram de a ele ter acesso, decidiram manifestar o seu descontentamento. E a forma de o fazer foi efectuar uma transferência em nome do valor da independência. E se uma candidatura, com ou sem partidos a suporta-la, é sempre um acto de cidadania, quando tem por objectivo apenas o acesso a uma posição deixa de ter qualquer base de sustentação. É o que deixam transparecer as diversas transferências que se têm vindo a verificar de uma forma geral e com particular incidência no panorama autárquico de Lagos. Há, por isso, quem diga que os independentes são uma espécie de dissidentes de diversas estruturas partidárias. E só se deslocaram por não terem o lugar que ambicionavam ou que pensavam ser uma coutada sua. Resta esperar para ver até que ponto estas movimentações têm alguma interferência nas eleições que se avizinham .
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