Autárquicas

Autárquicas 2013: Leitura dos resultados, com maioria PS, obtidos no concelho de Lagos

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Joaquina Matos momentos antes de exercer o direito de voto

Depois de uma campanha intensa que esteve no ar mas que, em parte, foi impedida de entrar em casa dos portugueses, eis que o pano caiu e que, em termos de resultados, tudo se esclareceu. E depois dos números contados e de muitas unhas se terem ruído, o mapa autárquico de Portugal começou a sofrer alterações e a serem tiradas algumas conclusões. Entre elas há a destacar a do PS, a nível nacional, ter ficado em primeiro lugar. Apesar de perder baluartes onde sempre foi poder ou onde adquiriu uma significativa implantação, não resistiu a lutas internas e à sua consequente erosão. E eis que câmaras como as de Braga, Matosinhos ou a Guarda começaram a soçobrar porque o PS, pese embora os ventos a seu favor, não as soube aguentar.

Outro fenómeno a destacar tem a ver com um crescente grupo de dissidentes que, em muitos casos, deu lugar à proliferação das chamadas candidaturas independentes. Cada uma com a sua singularidade, há a destacar a especificidade da candidatura do Porto. Embora não se trate de nenhum dissidente e se apresente como um independente na sua verdadeira acepção, teve o amparo e a protecção de forças políticas institucionais e de personalidades locais do PSD que o fizeram destacar e lhe abriram as portas para alcançar o primeiro lugar. Mas com as suas especificidades bem próprias, o fenómeno dos independentes veio animar estas eleições locais e foram um factor de novidade por conquistar câmaras e mandatos que, há bem pouco tempo, não seria de esperar fora do espectro político tradicional.

Joaquina Matos votando4O que se passou um pouco pelo país adiante teve também, em Lagos, alguma expressão com maior ou menor dimensão. O PS, como era de esperar, acabaria por ganhar. Era conhecida alguma insatisfação e até uma certa rejeição, no espaço público de Lagos, pelas políticas seguidas na Câmara. As manifestações de esplendor e gastos sumptuosos começaram a ceder e a mostrar os seus resultados. E todos começamos a pagar as consequências do despesismo dos tempos de sumptuosidade por não haver contenção nem se acautelar os sinais anunciadores de tempos de dificuldade. E é natural que a insatisfação se tivesse apoderado também de franjas significativas da população.

Equipa_PSCom este sentimento a invadir as ruas e os caminhos de Lagos, era difícil ao PS renegar o seu passado. O caminho a seguir foi o de dizer que já não havia condições para construir mas para consolidar o que estava feito, a par de apostar na manutenção e na resposta às exigências de um espaço público que convém preservar e manter sempre atractivo. Sem grandes promessas no ar, a não ser a da ponte de D. Maria, era necessário estabelecer mecanismos de proximidade e de apostar na afectividade com as pessoas. Foi o que a campanha pôs no ar para evitar os estragos que se sentiam e que já muitos exprimiam em contactos informais e em conversas pessoais. Apesar dos estragos se começarem a atenuar, já nada seria como antes. E é contra esta insatisfação que os esforços se vão desenvolvendo até chegar o 29 de Setembro. Com expectativas no ar, os resultados começam-se a apurar. E o PS, bastante a descer, como era esperado, consegue fidelizar parte do seu eleitorado. E este confere-lhe maioria na Câmara e na Junta de Freguesia de Odeáxere. Nos restantes órgãos autárquicos, também se aguentaria ao acabar por vencer mas sem maioria. E, assim, o PS de Joaquina Matos, embora sofrendo os efeitos do desgaste que a Câmara tem vindo a provocar, acaba por vencer e por continuar, embora de forma diferente, à frente dos destinos de Lagos.

Nuno Serafim2Onde tudo parece ser diferente é no reino do PSD. Tardou em entrar em campanha e em dar a conhecer os seus candidatos e a estratégia que tinha preparado para apresentar ao seu eleitorado. Mas depois de o fazer, entrou em força na campanha para passar a sua mensagem. E a seu favor tinha uma candidatura predominantemente jovem que era alicerçada por alguma veterania que a levava a encarar esta campanha com garra e alguma valentia. Mas, a seu desfavor, o PSD local lutava contra a desagregação de algumas famílias internas. E sem esquecer o pesado fardo da política nacional com consequências drásticas a nível local. Foi o que aconteceu ao partido laranja por terras de Lagos. Embora fosse previsível a sua penalização, era difícil imaginar que atingisse tal dimensão. E ainda por cima teve o azar de ficar a cerca de duas dezenas de votos de meter um segundo vereador. Com todas estas contingências, o PSD foi a força política mais penalizada e mais causticada pelos ventos da austeridade e de dificuldade que se abate sobre todos nós.

LuísReis1E quando há um certo mal estar e insatisfação com os partidos do poder, o voto de protesto acaba por ir parar a algum lado. E a CDU tinha consciência que a população tem vindo a ser causticada pelo aumento das tarifas a nível local e pela austeridade e cortes constantes que emanam do poder central. E, para isso, além dos seus candidatos de sempre, colocou dois em posições fulcrais. Luís Reis, apesar de não ser muito conhecido no eleitorado, tinha a seu favor o ser conhecido na Câmara Municipal e, devido à desmotivação que lá existe, conseguir para seu lado essa significativa franja do eleitorado. No exterior, contava-se com Luísa Teixeira, uma figura bem conhecida e já suficientemente experimentada em campanhas como esta. Com esta dupla a funcionar, era importante chamar para as suas hostes grande parte dos descontentes e que vêem numa eleição o seu grito de revolta e a sua manifestação contra a situação em que nos encontramos. E esta estratégia acabou por funcionar com a CDU, em Lagos, a duplicar a sua votação.

Luis_BarrosoO fenómeno dos independentes que, mais do que nunca nestas eleições, apareceu a nível nacional, também teve a sua expressão a nível local. O descontentamento é o fermento ideal para o aparecimento de movimentos como este. É por isso que, em geral, mais do que propostas que têm para apresentar, se baseiem em congregar quem, de uma forma ou de outra, apenas quer protestar. Foi o que aconteceu com alguns militantes do PS de Lagos que, ao não encontrarem o lugar que ambicionavam, fizeram questão de mostrar a sua indignação. E assim se juntaram a muitos outros que disputaram estas autárquicas. Mas o seu maior feito, em Lagos, não foi a campanha que desenvolveram, mas o trabalho prévio que os levaram a conseguir as assinaturas para, como independentes, puderem estar presentes neste plebiscito autárquico. Além da persuasão pessoal, muitos deram expressão a esta candidatura para manifestarem a sua indignação e o seu descontentamento a nível local e nacional. E este era um ponto de partida para o movimento se lançar e alcançar outros voos. Mas sem uma personalidade que lhes desse consistência real e com carisma a nível local, ficaram-se pelo protesto de quem quis assinar e viabilizar esta candidatura. Mas, mesmo assim, a sua representação em todos os órgãos autárquicos de Lagos é um feito digno de registar que só terá consequências se algum projecto político se começar a vislumbrar e se vier a cimentar no terreno. Por isso, se as incógnitas eram bastantes em relação ao resultado que iriam alcançar, vão continuar em relação à acção que vão desenvolver no terreno.

Artur Rego2O CDS-PP fez uma campanha para impressionar na mira de, daí, poder ir buscar alguns resultados. Começou com o aliciamento ao descontentamento de militantes de outros partidos. Trata-se de uma estratégia habitual quando em jogo está uma campanha eleitoral como a destas autárquicas. Mas, como o temos vindo a dizer, o CDS-PP pouca implantação tem em Lagos. E por mais que ouse fazer, e ainda por cima com os ventos a seu desfavor, pouco conseguirá por estas paragens. A campanha que ousou deitar mãos, com uma opulência que surpreendeu para um partido da sua dimensão, requeria outra votação. Mas não é difícil avaliar que, mesmo que o investimento fosse maior, o resultado pouco ou nada se acabaria por alterar. E se já o CDS-PP tinha representação na Assembleia Municipal, mas em coligação, aí vai continuar com um elemento que o vai representar. E nesta representação se esgota a faustosa campanha do CDS-PP.

Manuela_Goes1Por tradição, o Bloco de Esquerda é o partido que consegue congregar todos aqueles que, através do voto, querem protestar pelos mais diferentes motivos. Mas o Bloco tem vindo a perder a chama dos primeiros tempos e a ter de concorrer com outros que navegam nas águas agitadas do descontentamento e que chamam a si o desalento do cidadão eleitor. E, em Lagos, nestas eleições, no campo dos descontentes navegou a CDU e o movimento dos independentes. Com esta disputa do mesmo eleitorado, o Bloco de Esquerda começou a sentir a terra fugir-lhe debaixo dos pés. Mas mesmo assim, ainda se conseguiu afirmar ao fazer-se representar na Assembleia Municipal.

Paulo RosárioO grupo de jovens que concorreram numa coligação de pequenos partidos, sob a sigla Plataforma de Cidadania, fizeram a sua aparição e, quem sabe, prepararam o caminho para uma futura eleição. Como era fácil de entender, as suas expectativas não eram altas. Não é, por isso, de admirar que a sua expressão fosse tão baixa. Mas, conforme diz a sigla sob a qual se ousaram apresentar, foi um acto de cidadania que, devido à sua juventude, lhes pode preparar o caminho para o futuro. Aguarda-se, por isso, para ver se a Plataforma vai encerrar até ao aparecimento de um novo acto autárquico ou se se vai movimentar a preparar os seus caminhos futuros.

Com este capítulo fechado, para a história vai ficar um PS com maioria absoluta na Câmara Municipal. Mas não poderá esquecer que quase metade dos votos foram parar a quem faz questão de se afirmar como uma força de protesto e que ousa afirmar que nada vai ser como dantes. E, na verdade, olhando para os resultados, sente-se uma enorme insatisfação em relação às forças que têm tido o poder e à forma como o têm vindo a exercer. Se formos a ver, os votos que mais conseguiram escapar foram do PS, apesar da sua forte implantação, e do PSD, o mais fortemente castigado no decurso desta eleição. Um, em resultado da política que tem sido seguida a novel local, e outro, devido às consequências da austeridade impostas a nível nacional. Mas, para a posteridade, vai ficar um PS, com Joaquina Matos à sua frente, que nos vai governar, um PSD fortemente castigado, a emergência do grupo de independentes e uma CDU reforçada em relação às eleições dos últimos anos. Daqui em diante, ter-se-á de ver se esta correlação de forças se vai manter ou se se vai começar a diluir e a esvaziar no terreno.

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