Quem tem a capacidade de gerir, e muito mais quando está incumbido de o fazer em coisa pública, terá de associar o risco à contenção e à capacidade de previsão dos tempos mais próximos ou mais distantes. E para o fazer, deverá auscultar não só os que, numa atitude de dependência, mais não fazem do que proferir aconselhamentos que o seu chefe quer e gosta de ouvir. Torna-se fundamental que pessoas avalizadas e com provas já dadas, além do seu sentido crítico e da sua independência, sejam chamadas a contribuir e a dar o seu parecer ao decisor. Mas com o cultivo de dependências e de subserviências bem próprias, foi-se criando no nosso espaço público circuitos bem fechados em que todos se sentiam comodamente instalados. Desta forma, os chefes, ou quem estava no topo da pirâmide, eram bajulados em vez de serem confrontados com os riscos que uma determinada decisão poderia acarretar e com os perigos que daí poderiam resultar.
Com este modus faciendi instalado nos nossos organismos oficiais, estavam criadas as condições para cada chefia, e muito mais para quem decidia, poder ouvir apenas o que lhe dava satisfação e corroborava a decisão que já morava dentro de si. Sem se cultivar o sentido crítico, a diversidade e as opiniões que poderiam contribuir para se avaliar as diversas vertentes e os riscos inerentes a uma decisão, começou-se a instalar uma espécie de monofonia que mais não fazia do que enaltecer a ideia de quem decidia. E, assim, governantes, presidentes e as mais diversas classes de dirigentes começaram a sentir que tudo poderiam fazer sem avaliar as consequências para o futuro. Por trás de si sempre tinham a avaliação de quem lhes massajava o ego e funcionava como uma espécie de suporte teórico para fundamentar o que já se decidira fazer.
A tudo isto, no que a Lagos diz respeito, há a juntar uma boa situação financeira que se herdara e um ciclo económico que prosperava e que alimentava deslumbramentos e fantasias. Foi o que aconteceu a quem, em 2001, chegara ao poder e, de repente, sentiu que tudo poderia fazer. Com os ventos a soprar em seu favor, com a inexperiência dos caminhos de gestão, com uma entourage apostada na bajulação e com tudo a inclinar-se em redor do novo Presidente da Câmara Municipal, parecia que uma nova realidade nascia. E, de facto, começou a nascer com todos os investimentos que, entretanto, foram surgindo e com a Câmara cada vez mais a engordar e a estender os seus tentáculos.
O primeiro a deitar mão, foi ao mundo da construção. Começar-se-ia por uma promessa antiga e que, há mandatos atrás, vinha sendo prometida; a construção das piscinas municipais e do pavilhão desportivo. Uma obra que vinha sendo sucessivamente anunciada e que, agora, se fazia questão que não fosse mais adiada.
Era uma necessidade, apesar do mar e de outros equipamentos do género que estavam a prosperar. Pese embora os encargos que veio criar, apresenta-se como um equipamento que, em diversas vertentes, veio prestar serviços de relevo à comunidade lacobrigense. O problema tem sido a forma de gestão destes importantes serviços à população. Mas mais do que este equipamento em si, está o facto de marcar o início de uma relação com o sempre polémico mundo do betão. E dizemo-lo em relação a muitos empreendimentos privados que se vieram a viabilizar como em relação a empreendimentos públicos que se vieram a concretizar.
Em relação aos primeiros, temos o Vale de Porto de Mós como exemplo do que se não deveria fazer. E ainda não está de pé tudo o que se lá irá ver. Mas aquela encosta nascente abre um precedente que não augura nada de bom para um vale paradisíaco que a construção desfigurou e a densidade matou. E para isto muito contribuiu a ausência de um plano director municipal que, ao longo de uns infindáveis doze anos, não chegou a ver a aprovação e, dessa forma, viabilizou muita construção. Porto de Mós é o exemplo acabado de um espaço adulterado.
E como esta febre estava no ar também a construção pública não poderia faltar. Foi o que aconteceu com os edifícios municipais. Primeiro tivemos o do Chinicato onde se reconstruiu um edifício que seria suficiente para albergar e dar resposta à congregação dos diferentes serviços do município. Mas tinha a seu desfavor o ficar fora da cidade e sem possibilidade de muitos munícipes aí poderem aceder a não ser pelos seus próprios meios. Depois foi o imponente edifício da Câmara já na cidade e de fácil acessibilidade. Mas a imponência que o rodeou e o deslumbramento que saltou para os discursos oficiais já não condizia com a realidade que se vivia. Por isso, num passe de mágica, recorreu-se às engenharias financeiras em vigor e que,
pelo país adiante, faziam tanto furor. E mais não eram do que, em face de restrições, se atirar tudo para as futuras gerações. Foi o que aconteceu com a parceria público privada que fora arquitectada para viabilizar este projecto desmesurado que se queria inaugurar. E, de repente, uma Câmara carente de instalações fica com edifícios a mais. Um é desactivado e entregue aos bocados a associações e a outras instituições. No outro ficaram instalados os serviços municipais.
Também a marcar este deslumbramento está a forma como se ousou encarar os parques de estacionamento da avenida e do anel verde. Ambos acabaram por arrancar quando os ventos da recessão impunham outra moderação. E nem a febre existente em querer mostrar mais obra impediu alguma reflexão e, mesmo já em fase adiantada, que se procedesse a alguma reformulação. E eles aí estão longe de se aproximar da sua lotação mesmo nos períodos mais intensos do nosso verão. A par do estacionamento da avenida, a sede de mostrar obra haveria de deitar a mão e de proceder, contra a opinião reinante, à remodelação da Praça do Infante. Foi mais uma obra que se ergueu e que contribuiu para o agravamento do passivo da Câmara Municipal. E conta o seu desfavor com um sentimento de saudade, em relação à praça antiga, que invadiu a cidade.
Estas, poder-se-á dizer, que foram as obras emblemáticas que mereceriam uma maior reflexão e, possivelmente, outra ponderação. A excepção poderá ser as piscinas e o pavilhão, se exceptuarmos a sua gestão. Mas, para além destas que viemos a mencionar, muitas outras se vieram a concretizar. Uma, que já se herdara, diz respeito à remodelação do Mercado da Avenida. Tratava-se de uma obra cuja remodelação era uma exigência e uma obrigação. E ela aí está com uma imagem renovada a oferecer condições a todos os que frequentam ou simplesmente visitam umas instalações como aquelas. Também o mercado de Santo Amaro se viera a remodelar mas de uma forma que deixou muito a desejar. Outras que se iniciaram de raiz e que eram uma necessidade dizem respeito ao Parque da Cidade situado entre a Porta da Praça de Armas e a Porta dos Quartos. Foi uma obra que se veio transformar numa espécie de pulmão ao criar um vasto espaço verde para usufruto da população.
Mas onde a política do betão fez mais sentido foi no mundo da educação. Com um parque escolar envelhecido e com deficiências de cobertura no pré-escolar, tornava-se necessário, no primeiro caso, a sua renovação e, no segundo, uma maior expansão. Foi o que se fez pelo concelho adiante com escolas renovadas e com algumas construídas de raiz. E, pouco a pouco, foi-se assistindo a uma profunda renovação que, a par de iniciativas diversas, mostrava uma aposta forte no mundo da educação. E esta foi certamente a aposta mais conseguida que se acabou por ver, embora para o futuro fique sobretudo a renovação do parque escolar.
Embora estes sejam os principais investimentos que atravessaram o ciclo autárquico que acaba de expirar, muitos outros pela cidade e pelo concelho adiante se vieram a concretizar. E entre eles há a destacar a renovação urbana do Parque de Bensafrim, do Largo do Moinho de Odeáxere, dos arruamentos da Praia da Luz bem como a promoção de habitação social como a do sítio das Eiras em Odeáxere. A isto há a juntar o investimento em recintos desportivos com relvas sintéticas e iluminação além da construção da pista de tartan no Estádio Municipal.
Poder-se-ia ainda mencionar um conjunto de pequenas obras que se vieram a realizar um pouco por todo o concelho. Mas as que pela sua dimensão e pelo seu modelo de financiamento e gestão acabam por se apresentar como emblema do deslumbramento do investimento deste ciclo autárquico, são as do segundo edifício da Câmara Municipal e as dos parques de estacionamento. Além da dívida que vieram avolumar, as parcerias público privadas em que se suportam são um factor de endividamento que se prolonga no tempo. E a elas não se poderiam dissociar as empresas municipais criadas em parte para suportar o seu modelo de financiamento.
Agora que este ciclo terminou e que a pesada dívida da Câmara se criou, um novo se começa a inaugurar e vamos ver como vai lidar com este fardo pesado. Tudo dá a entender que a aposta no investimento é passada e que, a partir de agora, a manutenção do existente será privilegiada. Será uma forma de deitar a mão a toda a herança e estabelecer um ciclo de mudança que pressuponha novos modelos de gestão e uma relação diferente com o património herdado e com todo o legado do município.
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