Cultura

Uma miniatura do Festival dos Descobrimentos

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Quando havia dinheiro para gastar começou-se a organizar um festival dos descobrimentos. Com pompa e circunstância, as ruas de Lagos começavam-se a engalanar e todo um conjunto de tascas, tendas e mais tasquinhas nos faziam transportar até à época de quinhentos. E para o cenário se completar, um conjunto de figurantes conseguiam recriar essas eras mais remotas. Mas quando o espectáculo atingia o seu esplendor era quando os desfiles se realizavam e os vários estratos sociais passeavam o seu esplendor ou mostravam as gentes que sustentavam a base da pirâmide social. E espectáculos sucessivos davam o mote final para essa recriação que, durante dias, nos dava a sensação de estarmos a viver tempos de outras eras que se celebrizaram e nos projectaram por esse mundo além.

No seu apogeu, o festival dos descobrimentos parecia que se iria institucionalizar e, com o andar do tempo, até se poderia sustentar. Mas, ancorado no orçamento da Câmara Municipal, pareceu não mostrar predisposição para a sua auto-sustentação. E com a crise a eclodir, de repente o festival dos descobrimentos deixou de ter capacidade para prosseguir. E já parecia adormecido no tempo quando, com a crise a fazer-se sentir, fez questão de mostrar que continuava a existir. E eis que, neste ano de 2013, decide ressurgir fora do tempo e com um formato bem mais contido e apertado. A sua configuração leva-nos a pensar que estamos perante uma edição em miniatura do que já fora e se anunciara.

E, assim, nasceu esta presente edição com a designação de VII FESTIVAL DOS DESCOBRIMENTOS com início a 26 de Abril e terminus a 5 de Maio. Trata-se de uma miniatura pouco cuidada e que, ainda por cima, foi atirada para o descampado da Praça do Infante e Jardim da Constituição. Seria um local aprazível com bom tempo e outra apresentação. Mas nem uma coisa nem outra este festival nos quis presentear e, por isso, foi desagradável suportar aquela ventania e até algumas nuvens de pó que teimavam em se levantar. O centro da cidade, de acordo com o que se viu em outras edições, era mais aconchegado, com outro conforto e mais propício a criar o ambiente que nos iria transportar a outros tempos históricos. Parecia que a cidade se confundia com essas eras remotas. Até o próprio visitante se sentia mais facilmente atraído e imbuído do espírito e da ambiência que o rodeava e que a ninguém deixava indiferente.

Valeu, ao menos, deitar mão a quem lançou os alicerces e esteve na sua fundação; às escolas da cidade e à Júlio Dantas que, desde a primeira hora, esteve na sua origem e na sua organização. Foi o tempo em que, mais do que festival, se atinha à simples designação de feira medieval. E esse cortejo, em que os principais protagonistas, pelo seu número e pela sua variedade, eram os alunos das escolas, acabou por se constituir no elemento mais mobilizador desta miniatura de festival que dá continuidade à feira medieval. E foi o elemento que mais galvanizou este acontecimento, não só pelos elementos que congregou, mas também pela população e visitantes que mobilizou desde o Mercado de Levante, local da sua partida, passando pela avenida dos descobrimentos até à Praça do Infante. Mas bem podia ser mais o público que assistiu àquele desfile se houvesse divulgação até junto dos muitos turistas que, por esta época do ano, já percorrem os corredores das terras de todo o Algarve.

Assim, foi o que se pode arranjar a poucos meses de partida de um executivo e, sobretudo, de um presidente que se quis despedir de um acontecimento que fez questão de projectar e de enraizar nos acontecimentos de monta do calendário turístico cultural da cidade de Lagos. Mas a contenção obrigou a um formato demasiado reduzido e, sobretudo, a um planeamento que muito ficou a desejar devido a um amontoado de tendas no Jardim da Constituição e Praça do Infante que não dava coerência e arrumação à mente de quem as quisesse visitar. E se a isto juntarmos uns dias de ventania, de poeira no ar e de frio que se fazia sentir, era difícil até aos mais afoitos poderem por muito tempo resistir. E no que às nuvens de poeira diz respeito, é caso para se perguntar que é feito desse pavimento que, ao longo dos passeios do Jardim da Constituição, andaram a colocar. E como ainda não passou muito tempo sobre as obras realizadas, seria ainda tempo de pedir satisfação por aquela situação.

Com mais ou menos ingredientes, para a história fica um festival dos descobrimentos em forma de miniatura a relembrar a crise que se está a viver e a dizer adeus com este aceno de despedida aos homens que lhe deram corpo e estão de partida.

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