Lagos é uma cidade dotada de uma beleza invulgar. E algumas intervenções têm-na conseguido valorizar. Mas outras têm-na ferido e agredido em tudo o que tem de melhor. Basta recordar e passar pelo vale de Porto de Mós. É difícil acreditar como é que num vale tão paradisíaco e todo ele voltado para o mar se ousou implantar uma urbanização que o agride, o sufoca e o descaracteriza. Mas ela lá está levada pela mão de quem, incumbido da gestão dos nossos destinos colectivos, o deveria valorizar e contribuir para a beleza com que a natureza o dotou.
E, no que à natureza diz respeito, o mundo começa-a a descobrir e a realçar no que tem de melhor. É o que acontece com a Ponta da Piedade a ser divulgada pelas estações de televisão e, de uma forma geral, pelo mundo da informação como um dos locais mais belos do mundo. E com essa publicidade que nos ousaram fazer, todo o esforço deveria ir no sentido de ainda mais se valorizar tudo o que temos para continuar a chamar cada vez mais veraneantes e visitantes para a cidade de Lagos. E, certamente, com essa valorização ainda mais a beleza dos recantos de Lagos se potencializaria e todo o seu espaço urbano se divulgaria além fronteiras.
Mas essa divulgação requer uma mão que a valorize, que a dignifique e que lhe dê ainda mais qualidade. E essa mão terá de vir de quem está incumbido da gestão dos nossos destinos colectivos como é o caso dos nossos autarcas. Para se ver, ter-se-á de sentir uma cidade mais limpa, mais asseada e mais preservada. Os espaços públicos terão de ser mais cuidados, mais bem tratados e mais bem conservados. A par da higiene e da limpeza e da arrumação da própria cidade, toda a valorização cultural, patrimonial e ambiental terá de ser uma preocupação constante dos nossos responsáveis políticos.
Mas os ventos parecem soprar em sentido contrário. É o que acontece com as barracas na Avenida de Lagos. Escusado será dizer que o passeio da Avenida é um dos espaços mais amplos e mais nobres da cidade. É deslumbrante efectuar o seu percurso e contactar com aquela frente ribeirinha e com o seu distante horizonte de mar. Enquanto para poente tínhamos as suas palmeiras, o seu jardim e algumas fontes de água, a nascente a água espraiava-se, ora a subir pela força da maré, ora a descer a caminho do mar. E era gratificante passear naquele extenso calçadão. E muitos eram e são os que o continuam a descer e a subir e a desfrutar da sua paisagem.
Em face deste espaço tão singular no que ao seu simbolismo e à sua beleza diz respeito, seria natural a sua valorização. Mas, incompreensivelmente, temos vindo a assistir à sua adulteração. Primeiro, foi o seu jardim roubado em parte do seu traçado devido ao parque de estacionamento da frente ribeirinha. Depois foi a instalação de uns barracões em frente do Mercado da Avenida. Tal como dissemos na altura, tratava-se de uma loucura no que à imagem da avenida diz respeito. Além do seu carácter inestético, aquelas estruturas estão deslocadas e, dali, rapidamente, deveriam ser retiradas. Apesar da nossa chamada de atenção e de algumas vozes terem manifestado indignação, os barracões, cerca de três, lá se mantiveram e continuaram até aos dias de hoje. Mas como estavam quase sempre fechados, esperava-se que, mais hoje ou mais amanhã, fossem retirados. Mas, para espanto de todos, em vez de se lhes dar uma solução, decide-se optar pela sua proliferação. Ao todo, quer-se lá instalar mais cerca de trina e um, embora com um figurino diverso. Em vez das estruturas metálicas, o pano agora vem-nas cobrir para lhes dar uma estética diferente. Mas nem esta nuance deixa de ocupar e de desvirtuar um espaço que é roubado ao cidadão e que adultera aquele vasto calçadão.
Com tanta barraca ou barracaria, como se lhe queira chamar, vai-se destruir, em Lagos, aquela frente de mar. E, sobretudo, vai-se destruir um dos espaços mais abertos, mais convidativos, mais nobres e mais emblemáticos desta cidade que tem o mar como pano de fundo. Não admira, por isso, que já haja petições a correr para ver se se consegue travar mais este atentado ao património paisagístico e ambiental de Lagos. E todos os que ousem participar estão a contribuir para que a cidade seja preservada e para que a avenida dos Descobrimentos não seja adulterada.
Ouve-se dizer que esta medida já vem do executivo anterior. Mas mesmo que esta deliberação impensada não seja do executivo vigente, não significa que a tenha de levar por diante. Trata-se de um executivo que tem toda a autonomia para decidir e para, num caso como este, não deixar ferir irremediavelmente a avenida, com barracas ou tendas como se lhe queira chamar, como está já a acontecer. Em nome de todos os que se estão a pronunciar, e são já muitos, o executivo municipal terá de travar um atentado como este. Até poderiam ser muitos a pronunciar-se e não terem razão. Mas, aqui, está em causa a adulteração de um dos espaços mais emblemáticos de Lagos. E travar uma decisão como esta é defender o bem comum.
É verdade que a venda ambulante requer ser dignificada, regulada e integrada no espaço urbano de Lagos. Mas não é com decisões impensadas, destituídas de sentido e que vão adulterar a avenida que se está a valorizar Lagos, a torná-la um espaço mais cativante para viver e mais atractivo para acolher todos os que, ao longo de todo o ano, nos escolhem como seu destino turístico. Parece que enquanto os nossos visitantes constantemente nos estão a valorizar, nós, em vez de aprendermos com eles, continuamos a remar em sentido contrário. É o que se está a fazer com a ferida das barracas da avenida.
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